Com criatividade, goianos conseguem divulgar trabalho e viver de arte

♫ Lou Reed | Vicious

Pausa nos textos sobre meus dias de férias (que já chegaram ao fim na verdade, mas ainda tem mais três posts a respeito programados para entrar no ar por aqui). Ontem eu publiquei no jornal A Redação uma matéria que me deu muito prazer de fazer e que fala sobre um assunto um pouco negligenciado pelas grandes mídias: o trabalho dos artistas visuais contemporâneos. Elaborei uma matéria que mostra que estratégias de mercado e divulgação os artistas goianos adotam para viverem de seu trabalho. Modéstia à parte, gostei do resultado. Estou feliz de ter tido a oportunidade de entrevistar pessoas tão interessantes e que admiro muito. Por conta disso, coloco o texto na íntegra abaixo – mas você também pode ler a original aqui.

Com criatividade, goianos conseguem divulgar trabalho e viver de arte

Saber usar internet é essencial no mercado

Com criatividade, goianos conseguem divulgar trabalhos e viver de arteVictor Rocha, Renato Reno e Douglas Pereira formam o Bicicleta sem Freio, empresa artística que completou 10 anos com muito trabalho e perseverança (Foto: kouryangelo.com)

Viver de arte, assim como em qualquer outra profissão, exige estratégia e inovação. A receita varia de acordo com os interesses e a criatividade de cada um, mas a mistura desses ingredientes tem resultado em muito trabalho e boa reputação em Goiás, no Brasil e também no exterior. Atuando por conta própria e utilizando plataformas contemporâneas para produzir e divulgar seus trabalhos (internet e as ruas, principalmente), artistas visuais goianos apostam em novas práticas para construir parcerias rentáveis e estratégias mercadológicas.

Um dos casos que chama a atenção é o do estúdio Bicicleta sem Freio, que acaba de completar 10 anos e em julho foi convidado a participar, ao lado de outros 11 artistas de rua, da exposição Scoop London, na capital britânica. A exibição faz parte da programação de um dos mais importantes eventos de moda da Europa, a Scoop International, que revela novos estilistas para o mundo e é realizado em dois lugares badalados de Londres. Um deles é a renomada Saatchi Gallery, a mais importante galeria de arte da Inglaterra, quiçá do velho continente.

O convite para integrar a equipe de artistas expostos – como os únicos brasileiros, diga-se de passagem – veio da curadora da exposição, Charlotte Dutoit. A francesa, que hoje empresaria o Bicicleta fora do Brasil, conheceu o trabalho do trio formado por Douglas Pereira, Victor Rocha e Renato Reno pela internet, onde os artistas expõem o portfólio. O contato levou a produção artística do trio a outros patamares.

O primeiro convite foi para fazer um mural em Las Vegas, Estados Unidos. Quem vê a beleza do resultado nem imagina que os três rapazes são, na verdade, designers gráficos. O lado artístico, segundo Douglas, foi crescendo lentamente e cada vez mais ganhando espaço nas peças que produziam. Hoje podem ser considerados verdadeiros artistas, com obras espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Moradores de Los Angeles, Londres, Lisboa e Rio de Janeiro têm a sorte de cruzarem com murais assinados pelo trio nas ruas.


Mural em Los Angeles assinado pelo Bicicleta sem Freio (Foto: kouryangelo.com)

O sucesso de hoje e a demanda de interessados no serviço do Bicicleta sem Freio pode passar a ideia de que o caminho trilhado pelos goianos se resume à soma de talento e sorte. Mas não foi bem assim. Para romper a barreira inicial e conseguir os primeiros clientes, o grupo teve que pensar em alternativas criativas para colocar em prática o talento.

“Nosso primeiro cliente foi a gente mesmo. Como não tínhamos experiência nem portfólio, tivemos a ideia de criar uma banda, a Black Drawing Chalks (BDC). Ela serviu como laboratório para nós. Fizemos cartazes, capas de disco, camisetas. Depois foram aparecendo festivais interessados e fizemos alguns materiais também. Só depois de um ou dois anos que realmente começaram a surgir clientes”, conta Douglas.

Iniciada como laboratório para as criações visuais do Bicicleta, a banda cresceu. Tem hoje no currículo turnês fora do Brasil e o hit My Favorite Way, escolhido a melhor música do Brasil em 2009 pela Revista Rolling Stone.

Agências de publicidade, bandas e festivais foram, durante um tempo, os principais clientes dos ilustradores. Hoje a lista de marcas e corporações com quem trabalham inclui nomes como Sony, Nike, MTV, Absolut e Converse, entre outras. “Clientes maiores esperam uma postura mais profissional. Passamos muito tempo divulgando nosso trabalho nas redes sociais até perdermos clientes por falta de um site oficial”. Douglas brinca “que a internet é um veneno” mas, para quem sabe usar, pode ser uma arma poderosa.

O virtual e as ruas
O artista visual Mateus Dutra também acredita no poder da internet e usa sem moderação as redes sociais, principalmente o Instagram, baseado apenas em imagens, como parte importante da estratégia de venda e divulgação de seu trabalho. Para ele, a ferramenta é boa e atrai clientes, mas é preciso mais.

O artista, que também é produtor cultural, vê a rua como um grande outdoor, um espaço disponível para mostrar sua arte, estar mais em contato com a cidade e mais acessível às pessoas. Mateus, juntamente com outros artistas urbanos como Decy, Morbeck e Wes, tem feito de Goiânia uma galeria a céu aberto.

É possível encontrar obras assinadas por eles em diversas ruas da Capital, especialmente pelas vielas do Setor Sul. São obras bonitas, coloridas, com traços característicos de cada artista e que exercem funções sociais importantes: ocupação de espaços públicos esquecidos, democratização da arte, resgate de sensibilidades e redescoberta da cidade.

Para o superintendente executivo da Secretaria de Cultura de Goiás (Secult), Décio Coutinho, esse movimento é muito positivo para a sociedade em geral. “Esses novos meios de mostrar e divulgar trabalhos artísticos desafiam outros artistas a serem mais criativos. Além disso, a arte de rua funciona como uma forma de apropriação urbana e revitalização de espaços públicos, tornando o dia a dia da população menos duro”, argumenta.

Em junho passado, Mateus postou em seu perfil do Facebook uma notícia triste: um de seus murais, assinados também pelos parceiros citados anteriormente, havia sido apagado pela empresa proprietária do local. A postagem teve mais de 70 compartilhamentos, mais de 120 comentários e quase 300 curtidas. Isso mostra que o trabalho que vem sendo feito nas ruas tem um público apreciador que não pode ser ignorado. O trabalho que esses artistas fazem é gratuito e beneficia tanto eles próprios, que ganham divulgação e reconhecimento, quanto público, que ganha uma cidade mais bonita.

Obras particulares
Essa ação nas ruas tem trazido bons frutos para os artistas. A última edição da Casa Cor Goiás serve de prova. No evento de arquitetura e decoração mais importante do Estado, Mateus, Decy, Morbeck e Wes participaram como convidados e agradaram o público. Mateus aplicou o stêncil de canários-rei em uma das paredes da Varanda Sensorial do arquiteto Giovanni Baptista Borges; os demais parceiros fizeram um painel de quase dez metros de altura na Praça da Casa, assinada pelos arquitetos Frederico Rodrigues, Daiane Demézio e Luciana Rodrigues.


Mateus Dutra em frente ao painel que criou para um dos ambientes da Casa Cor Goiás (Foto: reprodução/Facebook do artista)

Outro artista que atua nas ruas e consegue retorno financeiro é Rustoff, que também reserva uma parte de seu dia para produzir obras particulares: “Acredito que a rua é o principal veículo de divulgação, apesar de utilizá-la bem menos do que queria. Pela rua consigo atingir de forma ativa um público que não conheceria meu trabalho”.

Obras do artista podem ser vistas nos muros de Goiânia e também na Plus Galeria, empresa responsável pela venda das peças assinadas por Rustoff. “Tenho plena consciência de que meu trabalho na rua pode durar anos ou apenas um dia. Devido a esta efemeridade, opto por utilizar materiais menos nobres, coisa que não considero ao realizar uma tela ou papel. O trabalho que vai para a galeria precisar ter um bom acabamento e ser realizado com bons materiais.”

Eventos
A parceria com a Plus foi a forma que Rustoff encontrou para conseguir maior retorno financeiro, porque além do trabalho individual e independente de divulgação que ele faz – nas ruas e nas redes sociais – a galeria tem também suas estratégias de venda. Por ser online, a localização física não é uma barreira e vendas são fechadas inclusive no exterior.


Arte de Rustoff pelas vielas do Centro da Capital (Foto: reprodução/Facebook do Artista)

Paralelamente a isso, a galeria realiza com frequência eventos que atraem bastante público, como o Serigrafada, que une moda, design, música e bar. A proposta é que o público leve para o evento uma peça de roupa que deseje receber uma serigrafia assinada por artistas da galeria mediante o pagamento de uma quantia em dinheiro. Sempre formam filas de espera para conseguir customizar a peça levada. Com apenas quatro anos de idade, a Plus deve abrir uma loja física em breve.

Com trinta anos a mais do que a Plus, a Potrich Galeria é outra que atua na busca por artistas que tenham linguagem contemporânea e potencial para se destacar no mercado mundial. No ano passado, o local abriu as portas para os artistas de rua e realizou uma exposição temática. Segundo Ludmila Potrich, esse tipo de ação “muda o olhar de quem consome arte”. A irmã e sócia Tatiana Potrich concorda: “Tem também a fachada da Galeria que fica num ponto estratégico sensacional. Usufruímos de sua localização promovendo os artistas do ‘grafitismo’. Além de ficar linda, [a fachada] acaba virando uma galeria aberta, democrática e urbana”.


Fachada da Galeria Potrich assinada pelo artista Mateus Dutra (Foto: divulgação)

Essa democratização das artes visuais é muito bem-vinda tanto para os profissionais da área – acostumados a trabalhar com uma forma de expressão menos popular do que outras formas artísticas, como a música – quanto para o poder público. “As artes visuais vêm crescendo muito no país. Artistas como o Bicicleta sem Freio, Mateus Dutra e tantos outros vêm exportando uma arte de altíssima qualidade para o mundo todo. E isso ajuda a aumentar a demanda no Brasil e em Goiás”, defende Décio. A consequência disso é um mercado de arte cada vez mais produtivo.

Perseverança
No último mês de julho, o Bicicleta sem Freio completou dez anos de idade com sucesso, mas nem sempre foi assim. Como todo começo empresarial, as dificuldades foram grandes, seja pela falta de experiência, seja pela falta de retorno financeiro. “Passamos perrengue demais. Já fomos despejados de um lugar por não conseguir pagar R$ 200 de aluguel. Mas, mesmo assim, não desistimos. Dificuldades aparecem, mas temos que seguir com o sonho”. A galerista Tatiana Potrich ainda completa: “Todo comércio tem seus altos e baixos. Não é diferente com o mercado de arte. A diferença é que quando se trabalha com arte e cultura você contorna os problemas com criatividade.”

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