Amor sem preconceitos

♫ Tulipa Ruiz | Do amor

Cia Quasar estreia espetáculo sobre a efemeridade do amor contemporâneo

“Aquela leveza…
Essa consciência. Esse querer.
Existem e ainda vão existir inúmeras possibilidades de amar.”
(Trecho destacado no programa do espetáculo)

imagem2  (Identidade visual: Juliano Moraes)

“Hoje as pessoas dizem ‘eu te amo’ com muita facilidade”, refletiu o coreógrafo da Cia Quasar, Henrique Rodovalho, entre um gole de café e outro. A efemeridade e multiplicidade das relações contemporâneas foi o que inspirou o dançarino a pensar o espetáculo Sobre isso, o meu corpo não cansa, apresentado pela primeira vez ao público nas últimas terça e quarta-feiras (2 e 3/12), no Teatro Goiânia. Na próxima semana, a companhia estreia no Sesc Pinheiros, em São Paulo, e de lá deve rodar Brasil e exterior com a novidade.

Amor de verão, namorinho de portão, rolo de uma noite só, homem com homem, mulher com mulher, festinha à três, paixões avassaladoras que duram a vida inteira. Seja qual for a forma com a qual o amor se manifesta, ele é sempre celebrado pelos amantes do mundo inteiro. O resultado disso é um tema insaciável, universal, tratado desde a existência humana – e assim será até o fim dos tempos. Daí o nome do espetáculo: sobre o amor, nosso corpo nunca se cansa nem nunca se cansará.

“O meu amor sai de trem por aí e vai vagando devagar para ver quem chegou…” A melodia suave da música de Tulipa Ruiz abre o espetáculo. A iluminação e o cenário, também pensados por Henrique, marcam o tempo cronológico das diversas histórias contadas em cima do palco. Casando com a música leve inicial, a luz também se mostra de uma leveza que quase escapa ao espectador. Está tudo voando em sintonia: melodia, dançarinos, luz. Assim como voa o coração em início de amor. Conforme o tempo passa, tudo vai ganhando mais peso. A cor predominante evolui para um vermelho, a coreografia se torna mais passional, mais erótica; casais são desfeitos, pessoas são abandonadas, o sofrimento toma conta. Aí vem o negro e a tristeza em meio à dramaticidade musical do momento. “(…) é só você que tem o dom de me enganar, me seduzir, me desdobrar, de me cuspir, só pra me obter”, grita Tulipa Ruiz enquanto os dançarinos, cada um fechado em seu próprio mundo sentimental, colocam para fora toda a dor do amor rompido.

Este é o penúltimo quadro do espetáculo e o que o sucede é uma volta ao início: a mesma música leve, a mesma esperança de amar, o mesmo casal que se encontra de novo depois de ter pintado e bordado com diversos outros casos de amor. E enquanto eles se encaram, com olhares apaixonados, os outros dançarinos começam a desmontar o palco: recolhem corações de papel espalhados pelo chão, recolhem as roupas que ficaram jogadas, levantam o véu que definia o cenário. Tudo se esvai e só fica o amor no fim das contas.

imagem1  (Identidade visual: Juliano Moraes)

Trilha sonora
A contemporaneidade do espetáculo também foi traduzida nas músicas escolhidas, todas assinadas por três cantoras jovens, atuais e que muito falam sobre essa temática sentimental. São elas Tulipa Ruiz, Mallu Magalhães e Clarice Falcão. A única exceção é Billie Jean, música de Michael Jackson que é cantada ao vivo pelos dançarinos bem afinados enquanto Henrique Rodovalho mostra toda sua desenvoltura no dedilhar de um violão. Quem foi apenas na primeira noite de estreia não teve o prazer de ver o coreógrafo no palco: “Era para eu ter entrado ontem também, mas quis assistir a apresentação da plateia. Mais tarde teremos um ensaio e vamos corrigir algumas coisinhas. Também vou incluir na segunda apresentação uma cabeça de cachorro em um dos dançarinos. Tive essa ideia hoje. Saindo daqui vou em uma loja de fantasias atrás dessa cabeça”, contou Henrique com toda a calma e elegância que tem. À noite, no Teatro Goiânia, um dos bailarinos entrou com uma cabeça de sapo. Ri sozinha na plateia.

A escolha por três artistas mulheres para assinar a trilha sonora foi uma coincidência, segundo Henrique. “Não era para ser só mulher, mas elas são mais interessantes, refletem mais a contemporaneidade”. Além disso, são complexas. “A Clarice Falcão tem um quê de neurótica fofinha, fala em se atirar do oitavo andar de um prédio sem perder a ternura; a Mallu é romântica, mas não é bobinha; e a Tulipa traz dramaticidade”. Ao todo são 21 músicas marcando o passo de oito dançarinos que se revesam na sedução do público: Andrey Alves, Harrison Gavlar, Jackeline Leal, João Paulo Gross, José Vilhaça, Martha Cano, Paula Machado e Tainara Carareto. Impossível ignorar um só que seja. Todos impecáveis. Sobre eles, meu corpo não cansa.

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