programão: cine drive-in

♫ Cordel do Fogo Encantado | O amor é filme

cine drive-in

Recebi um convite inusitado para um sábado à noite esses dias: “Bora pro Cine Drive-in?” E eu, que estava esperando a vida me trazer uma surpresinha para o dia, aceitei o presente e fui, toda animada com oportunidade. Até o momento, eu era virgem de Drive-in, confesso. Estava um pouco nervosa, ansiosa… mas já tinha visto na televisão como era e me deixei levar pelo ritmo lento das coisas. A noite estava bonita, o parceiro era legal (amigo já de alguns anos, alguém que eu confiava), fomos devagar, respeitando o tempo de cada um (o nosso e o do cinema, no caso). Quando mal esperei, aquela sensação boa me invadiu e, de repente, fiquei apaixonada. Não quero mais saber de nenhum outro cinema. Só tenho olhos para o Drive-in ❤

O lance é que toda a atmosfera do lugar te envolve de tal forma que não tem como não se render aos encantos dele. Parece que, logo que se chega à entrada, se atravessa um portal que te transporta para um filme americano dos anos 80. “Você pode desligar o farol?”, pergunta o atendente. Ele cobra sua entrada e te dá um cardápio que, além de sanduíches e batata frita, tem cerveja! Cerveja no cinema! Fala sério… Só amor.

Adoro muito cinema. Desde pequena costumo acompanhar meus pais em sessões diversas, tanto em casa quanto em salas comerciais. Cresci vendo e imitando as travestis de Almodóvar (e como diz meu pai, por isso que me tornei essa menina saudável, engajada nas boas causas… hahaha); cresci frequentando mostras independentes, vendo filmes pesados (alô, Saló!) e comedinhas hollywoodianas também (ninguém é de ferro, rs). Na minha adolescência em Goiânia, rolava uma mostra muito legal chamada 8 pras 11 (oi, Hélio Neiva!), que começava a exatos 8 minutos para às 11h da noite e varava a madrugada com uns filmes difíceis de alugar por aí (na época, download era para poucos, rs). Essa mostra e outras que rolavam no Cine Ouro (cineminha pequeno do Centrão) moldaram meu caráter (que perigo!). Devo muito de quem eu sou hoje ao cinema ❤

Maaass… De uns tempos para cá, ando desgostosa de ir ao cinema. É sempre barulhento, cheio de pessoas que deixam o celular tocar nas horas inapropriadas, o espaço é pequeno (tenho 1,78m de altura. Preciso de espaço para as pernas!). Daí que ir ao Cine Drive-in me abriu todo um universo novo. Primeiro que, como cada um fica no seu carro, há uma privacidade sensacional! Você não escuta a conversa alheia e pode conversar à vontade sem se preocupar com o coleguinha do lado. Você regula a cadeira do carro do jeito que quiser e o áudio, que era uma dúvida minha com relação ao drive-in, é feito via rádio. Você tem que sintonizar na frequência deles lá e pronto! Som que você regula o volume 🙂 Muita qualidade de vida. Aí vem o plus… Tem lanchonete e garçom, que te atende quando você liga o farolete do carro, hahaha. O pedido chega na bandejinha, igual aos filmes americanos (só faltou o garçom atender de patins). E vamos só relembrar que tem cerveja! Sensacional.

E para quem ainda não assistiu ao filme da Anna Muylaert, Que horas ela volta?, com a Regina Cazé e a Camila Márdila, CORRÃO que ainda está em cartaz no Drive-in 🙂 A produção é muito foda (não vou ser spoiler. Só confia e vai lá ver) e está fazendo o maior sucesso aqui e lá fora. Os pais do meu padrasto, que moram no interior do interior da Suíça, assistiram o filme lá antes mesmo de chegar ao Brasil e ficaram encantados. Falaram bem, fizeram propaganda… Não pode ficar sem ver. Ganhou prêmio em Sundance e em Berlim. É cheio de discussões de classe na contemporaneidade, sem perder a questão humanista e afetiva. É tudo o que digo. Ó o trailer:

Bom filme! 🙂

Colá lá!
Cine Drive-in
Área Especial do Autódromo – Centro Desportivo Presidente Médice – Asa Norte
Ingressos:
De 2ª a 5ª – R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
De 6ª a domingo e feriados – R$ 22 (inteira) e R$ 11 (meia)

ode à preguiça (ou: sejamos todos preguiçosos!)

♫ Caetano Veloso | Samba e amor

7h30, o despertador tocou. Silenciei depois de derrubar tudo do criado mudo com minha mão sonolenta. Abri o olho, vi o sol já gritando na janela, pensei se atendia ao chamado do dia ou se me dava de presente aquela preguiça. Porque preguiça é uma dádiva, um carinho, um agrado gostoso para o corpo cansado. Sem prensar muito, me rendi. Acordei duas horas depois do planejado. A lista de tarefas na minha escrivaninha nem tinha mais espaço disponível: tantas leituras, ligações a fazer, aula a planejar, lugares para ir, contas a pagar… Tantos deveres, poucos direitos. Resolvi ler só um dos textos da minha lista, um que tinha um título bastante sugestivo: Elogio à preguiça, de Adauto Novaes. E aí, mermão, meu mundo virou de cabeça pra baixo. Ficou lento, devagar, gostoso. Assumi minha lentidão com orgulho. Porque a pressa cotidiana nos impõe certas condições que nos prendem e nos cegam. Não é normal não termos tempo para o lazer, não é normal corrermos para cima e para baixo sem prestar atenção na cidade ao redor, sem prestar atenção nas pessoas que passam por nós. Não é normal estabelecermos uma rotina de acordar-trabalhar-dormir. A liberdade de pensamento pede tempo.

E vamos nos dar mais tempo! Roubando as palavras da minha querida professora Karina Dias, “o movimento do pensamento humano só pode ser preguiçoso”. No texto de Adauto, ele fala que, diferentemente da ideia clichê que se tem do preguiçoso, de um cara à toa, sem nada para fazer, o preguiçoso é, na verdade, um cara muito ocupado. Porque a preguiça só existe se existir também os deveres que são deixados de lado. O preguiçoso é aquela pessoa que tem sempre mil coisas para fazer, mas que se deixa distrair por outras coisas. Paul Valéry diz que “é preciso ser distraído para viver”. Sejamos distraídos! E nessa cidade cheia de flamboyants floridos, é fácil se distrair…

Impossível pensar a preguiça sem uma oposição ao trabalho. Pensando nos primórdios do pensamento filosófico, os gregos defendiam o ócio criativo. Mas aí veio Hegel e acabou com tudo, rs. Foi ele o primeiro a pensar a questão do trabalho. Para o alemão, é o trabalho que faz do ser humano um animal histórico, é por meio do trabalho que construímos nossa realidade e a modificamos e, dessa forma, construímos a história. Sem trabalho, somos ahistóricos. WTF? Com todo respeito aos hegelianos, claro. A partir desse pensamento, podemos então contrapor essa ideia e pensar que, sem trabalho, somos mais próximos dos animais do que do próprio ser humano. Sem trabalho, assumimos uma animalidade. Há muitos autores que problematizam “animalidade”, mas gosto de uma citaçãozinha de Derrida em O animal que logo sou: “o pensamento do animal, se pensamento houver, cabe à poesia”. Dessa forma, podemos pensar na preguiça como uma redenção ao pensamento poético. Preguiça é poesia ❤

Mas por que então que o preguiçoso incomoda tanto? Porque negando o trabalho, ele nega também todo o sistema de exploração e consumo que vem com ele. O preguiçoso não consome, não reivindica reconhecimento, não tem vaidade; ele está em outro tempo, fora da correria geral, nega sua condição domesticada e não se deixa atropelar pela multidão. O preguiçoso é habitado pelo próprio eu. Quer coisa mais bonita que isso? E diferentemente do que pensam também, a preguiça não anestesia, muito pelo contrário. É ela o que traz de volta. Porque quanto mais a gente se deixa levar, mais a gente quer voltar, não é mesmo? Sejamos preguiçosos, meus caros, nos deixemos levar pelo devaneio.

retrospectiva de Godard no CCBB

♫ Mutantes | Le premier bonheur du jour

godard

Godard é um cineasta polêmico. Ou se gosta, ou se detesta. Não que seus filmes tratem de assuntos que causem discordâncias (alguns sim, nem todos), mas porque alguns deles podem ser realmente difíceis de assistir. Difíceis no sentido de romper com aquilo que nosso cérebro espera de uma narrativa cinematográfica. Nosso olhar foi (e continua sendo) domesticado por Hollywood, que nos apresenta sempre fórmulas prontas, historinhas mastigadas e, claro, uma recompensa moral. Mas Godard, como um dos nomes do movimento Nouvelle Vague que rolou na França na década de 1960, buscava ir além da receita hollywoodiana uniformizada. Ele buscava um cinema de autor. E que autor! Junto com Truffaut – que também foi seu “coleguinha” de movimento -, Godard é um dos meus cineastas preferidos. Talvez eu tenha herdado isso de família… Quando eu era criança, tivemos um boxer durante anos que se chamava Jean-Luc Gordard. Godard, para os íntimos, rs.

Daí que agora, próximo à data que o cineasta completaria 85 anos, o CCBB realiza essa mostra que conta com produções diversas, algumas nunca antes exibidas no país. São Paulo e Rio também terão essa alegria de viver até fins de novembro. De toda a programação, que pode ser conferida abaixo e também no site do CCBB (lá tem as sinopses!), eu destacaria Acossado, de 1959 (passou ontem, na abertura da mostra, e não vai repetir mais… Nem tudo é perfeito…); Uma mulher é uma mulher, de 1961 (passa hoje às 19h! CORRÃO!); Alphaville, de 1965 (um clássico; também passa hoje às 21h); Uma mulher casada, de 1964; e Adeus à linguagem, último filme dele, lançado em 2014. O mais incrível é que a maioria das exibições será em película! E os ingressos custam só R$ 4. É muita emoção ❤

Bora lá treinar o francês e discutir alguns temas que ele traz em suas obras! Aliás, amanhã tenho prova de francês e vai ser bom dar uma praticada na escuta hahaha. Feminismos, conspirações, liberdades podadas… Até o fim da mostra, teremos muitos assuntos interessantes. Godard est très super! On y va?

acossadoCena de Acossado (1959)

Programação
>> 21 de outubro – quarta-feira
19h Deux ou trois choses que je sais d’elle (Duas ou três coisas que eu sei dela)
21h À bout de souffle (Acossado)

>> 22 de outubro – quinta-feira
19h Une femme est une femme (Uma mulher é uma mulher)
21h Alphaville. Une étrange aventure de Lemmy Caution (Alphaville)

>> 23 de outubro – sexta-feira
19h Une femme coquette (Uma mulher faceira)
19h Vivre sa vie (Film en douze tableaux) (Viver a vida)
20h50 Le mépris (O desprezo)

>> 24 de outubro – sábado
17h Les carabiniers (Tempo de guerra)
17h Le petit soldat (O pequeno soldado)
20h45 Pierrot le fou (O demônio das onze horas)

>> 25 de outubro – domingo
17h Masculin féminin. Quinze faits précis (Masculino, feminino)
19h15 Made in USA
21h Opération béton (Operação concreto)
21h Tous les garçons s’appellent Patrick (Charlotte et Véronique) (Todos os rapazes se chamamPatrick (Charlotte et Véronique))
21h Une histoire d’eau (Uma história de água)
21h Charlotte et son Jules (Charlotte e seu namorado)

>> 26 de outubro – segunda-feira
19h Pierrot le fou (O demônio das onze horas)
21h15 Les carabiniers (Tempo de guerra)

>> 28 de outubro – quarta-feira
19h Le mépris (O desprezo)
21h Vivre sa vie (Film en douze tableaux) (Viver a vida)

>> 29 de outubro – quinta-feira
19h Deux ou trois choses que je sais d’elle (Duas ou três coisas que eu sei dela)
20h50 One plus one (Um mais um)

>> 30 de outubro – sexta-feira
19h Ciné-tracts (Cine-panfletos)
19h Pravda
21h Le grand escroc (O grande trapaceiro)
21h Le nouveau monde (O novo mundo)
21h Montparnasse – Levallois. Un action film (Montparnasse – Levallois. Um filme-ação)
21h L’amore (O amor)

>> 31 de outubro – sábado
17h La chinoise (A chinesa)
19h Week-end (Week-end à francesa)
21h Le gai savoir (A gaia ciência)

>> 1º de novembro – domingo
17h Un Film comme les autres (Um filme como os outros)
19h Une femme mariée (Uma mulher casada)
20h50 Anticipation ou L’amour en l’an 2000 (Antecipação ou o amor no ano 2000)
20h50 Bande à part (Banda à parte)

>> 2 de novembro – segunda-feira
18h30 La paresse (A preguiça)
18h30 Vent d’est (Vento do leste)
20h40 Letter to Jane: An Investigation about a Still (Carta para Jane)
20h40 British Sounds

>> 4 de novembro – quarta-feira
19h Le Gai Savoir (A gaia ciência)
21h Week-end (Week-end à francesa)

>> 5 de novembro – quinta-feira
10h Curso com João Lanari
19h Une femme mariée (Uma mulher casada)
21h La Chinoise (A chinesa)

>> 6 de novembro – sexta-feira
10h Curso com João Lanari
19h Vladimir et Rosa (Vladimir e Rosa)
21h Luttes en Italie (Lutas na Itália)

>> 7 de novembro – sábado
17h Tout va bien (Tudo vai bem)
19h Caméra-oeil (Câmera-olho)
19h Ici et Ailleurs (Aqui e acolá)
20h30 Clip Faut pas rêver / Quand la gauche aura le pouvoir (Quando a esquerda chegar ao poder)
20h30 Numéro deux (Número dois)

>> 8 de novembro – domingo
17h Comment ça va? (Como vai você?)
19h Sauve qui peut (la vie) [Salve-se quem puder (a vida)]
21h Passion (Paixão)

>> 9 de novembro – segunda-feira
19h Scénario de Sauve qui peut (la vie) (Roteiro de Salve-se quem puder (a vida))
19h Passion, le travail et l’amour: introduction à un scénario, ou Troisième état du scénario du film Passion (Paixão, o trabalho e o amor: introdução a um roteiro, ou Terceiro estado do filme Paixão)
19h Scénario du film Passion (Roteiro do filme Paixão)
21h Lettre à Freddy Buache. À propos d’un court-métrage sur la ville de Lausanne (Carta a Freddy Buache. Sobre um curta-metragem a respeito da cidade de Lausanne)
21h [Espoir/Microcosmos] (Esperança/Microcosmo)
21h Pour Thomas Wainggai (Por Thomas Wainggai)
21h L’enfance de l’art (A infância da arte)
21h Soft and Hard

>> 11 de novembro – quarta-feira
19h Numéro deux (Número dois)
21h Tout va bien (Tudo vai bem)

>> 12 de novembro – quinta-feira
19h Passion (Paixão)
21h Sauve qui peut (la vie) [Salve-se quem puder (a vida)]

>> 13 de novembro – sexta-feira
18h50 France tour détour deux enfants (episódios 1 a 4)
20h50 France tour détour deux enfants (episódios 5 a 8)

>> 14 de novembro – sábado
15h France tour détour deux enfants (episódios 9 a 12)
17h Histoire(s) du cinéma (História(s) do cinema) (episódios 1A e 1B)
19h Debate com Alex Vidigal e Pablo Gonçalo

>> 15 de novembro – domingo
17h Histoire(s) du cinema (História(s) do cinema) (episódios 2A, 2B e 3A)
19h Histoire(s) du cinema (História(s) do cinema) (episódios 3B, 4A e 4B)
20h50 Six fois deux (Sur et sous la communication) (Seis vezes dois: sobre e sob a comunicação) (episódios 1A e 1B)

>> 16 de novembro – segunda-feira
18h50 Six fois deux (Sur et sous la communication) (Seis vezes dois: sobre e sob a comunicação) (episódios 2A e 2B)
20h50 Six fois deux (Sur et sous la communication) (Seis vezes dois: sobre e sob a comunicação)(episódios 3A e 3B)

>> 18 de novembro – quarta-feira
18h50 Six fois deux (4A e 5B) Six fois deux (Sur et sous la communication) (Seis vezes dois: sobre esob a comunicação) (episódios 4A e 4B)
20h50 Six fois deux (Sur et sous la communication) (Seis vezes dois: sobre e sob a comunicação)(episódios 5A e 5B)

>> 19 de novembro – quinta-feira
18h50 Six fois deux (Sur et sous la communication) (Seis vezes dois: sobre e sob a comunicação)(episódios 6A e 6B + episódio cortado)
21h10 Prénom Carmen (Carmen de Godard)

>> 20 de novembro – sexta-feira
19h Petites notes à propos du film Je vous salue, Marie (Pequenas notas sobre o filme Eu vos saúdo, Maria)
19h Je vous salue, Marie (Eu vos saúdo, Maria)
21h Détective (Detetive)

>> 21 de novembro – sábado
17h Dans le noir du temps (No breu do tempo)
17h Ecce homo (Eis o homem)
17h Moments choisis des Histoire(s) du cinéma (Momentos escolhidos de História(s) do cinema)
19h Meetin’ WA (Encontrando WA)
19h Puissance de la parole (Potência da palavra)
19h Le rapport Darty (O relatório Darty)
19h Grandeur et décadence d’un petit commerce de cinéma révélées par la recherche des acteurs dans un film de télévision publique d’après un vieux roman de J. H. Chase (Grandeza e decadência de um pequeno negócio de cinema reveladas pela pesquisa dos atores em um filme de televisão pública segundo um velho romance de J. H. Chase)

>> 22 de novembro – domingo
17h Je vous salue, Sarajevo (Eu vos saúdo, Sarajevo)
17h For ever Mozart (Para sempre Mozart)
18h45 JLG/JLG. Autoportrait de décembre (JLG/JLG: autorretrato de dezembro)
18h45 2×50 ans de cinéma français (2×50 anos de cinema francês)
18h45 Adieu au TNS (Adeus ao TNS)
18h45 Publicidades
18h45 Les enfants jouent à la Russie (As crianças brincam de Rússia)

>> 23 de novembro – segunda-feira
19h Changer d’image. Lettre à la bien-aimée (Mudar de imagem. Carta à bem-amada)
19h King Lear (Rei Lear)
21h Grandeur et décadence d’un petit commerce de cinéma révélées par la recherche des acteurs dans un film de télévision publique d’après un vieux roman de J. H. Chase (Grandeza e decadência de um pequeno negócio de cinema reveladas pela pesquisa dos atores em um filme de televisão pública segundo um velho romance de J. H. Chase)

>> 25 de novembro – quarta-feira
17h50 Soigne ta droite ou Une place sur la terre (Atenção à direita)
19h30 Hélas pour moi (Infelizmente para mim)
21h10 Armide
21h10 Le dernier mot / Les Français entendus par (A última palavra)
21h10 Allemagne neuf zéro (Alemanha nove zero)

>> 26 de novembro – quinta-feira
17h45 King Lear (Rei Lear)
19h30 Nouvelle Vague
21h15 De l’origine du XXIe siècle (Da origem do século XXI)
21h15 The old place (O velho lugar)
21h15 Liberté et patrie (Liberdade e pátria)

>> 27 de novembro – sexta-feira
17h Une bonne à tout faire (Uma empregada que faz tudo)
17h Prière pour refusniks (Prece para refusniks)
17h Reportage amateur (Maquette expo) (Reportagem amadora [Maquete da exposição])
18h30 Sauve qui peut (la vie) [Salve-se quem puder (a vida)]
20h30 Palestra com Michael Witt

>> 28 de novembro – sábado
17h Une catastrophe (Uma catástrofe)
17h C’était quand / Il y avait quoi (hommage à Éric Rohmer) Era quando / Havia o que(homenagem a Éric Rohmer))
17h Khan Kahnne
17h Prix suisse, remerciements, mort ou vif (Prêmio Suíço, agradecimentos, morto ou vivo)
17h Vrai faux passeport (Passaporte verdadeiramente falso)
19h Le pont des Soupirs (A ponte dos suspiros)
19h Notre Musique (Nossa música)
21h Plus OH! (Mais Oh!)
21h Éloge de l’amour (Elogio ao amor)

>> 29 de novembro – domingo
17h Film Socialisme (Filme socialismo)
19h Les trois desastres (Os três desastres)
19h Adieu au langage (Adeus à linguagem)
21h Notre Musique (Nossa música)

>> 30 de novembro – segunda-feira
17h Éloge de l’amour (Elogio ao amor)
19h Adieu au langage (Adeus à linguagem)
20h30 Le Mépris (O Desprezo)

Veja as sinopses no site do CCBB 😉

Cola lá!
Retrospectiva de Jean-Luc Godard
Centro Cultural Banco do Brasil
Até 30/11
R$ 4 (inteira) / R$ 2 (meia)

últimos dias de Debret no Museu dos Correios

♫ Baden Powell | Canto de Xangô

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Uma das (várias) coisas incríveis de Jean-Baptiste Debret é sua capacidade de abarcar tanto o público-rato-de-museu quanto aquela parcela da população não muito fã de artes plásticas. Isso acontece porque o artista, apesar de francês, faz parte da história do nosso país, ou melhor, da construção da história do nosso país. Depois da mudança da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, nossa terra tupiniquim passou por mudanças grandes em um curto espaço de tempo. Além das construções de infraestrutura, criação de novos bairros, iluminação pública etc., é dessa época também a abertura da Biblioteca Nacional, o surgimento da imprensa no país e a chegada da Missão Artística Francesa, da qual fazia parte Debret.

Ele, que na Europa já frequentava as cortes reais, veio para o Brasil contratado pela coroa portuguesa para regitrar o cotidiano da nova cidade que se formava. Debret chegou pelo mar no Rio de Janeiro em 1816 e por lá ficou seus 15 anos seguintes. Entre todas as técnicas que dominava, escolheu a aquarela para retratar cenas rotineiras, paisagens pitorescas, funerais, celebrações, vestimentas, mapas da cidade etc. O traço delicado e as pinceladas aquareladas derretem o coração de qualquer um, por mais cético que seja.

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Claro que os motivos das obras também dão um peso dramático ao trabalho: na maioria delas, africanos escravizados seguem vivendo com tristeza, submissão e dor. A apatia é visível nos movimentos que Debret construiu, mas esperto que era, também mostrou resquícios da cultura africana que lutava para sobreviver naquela sociedade branca e catequisada. Os tecidos coloridos, as tatuagens, os rituais fúnebres (mesmo que fossem “católicos”), a beleza negra… está tudo ali, em papéis de 15x21cm. Incrível pensar em quanta história cabe em poucos centímetros de papel. Debret nos faz refletir sobre nossa história, nossa história tão cruel, nossa história que é negra mas que foi esbranquiçada desde sempre. O grande tesouro das aquarelas do francês é a cultura negra, tão linda, tão forte, tão sofrida.

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A exposição conta com 120 aquarelas da coleção Castro Maya. Depois que Debret voltou para a França, ele organizou todo o trabalho em um publicação batizada de Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Durante anos as obras ficaram pelo velho continente, mas o mecenas e colecionador de arte Castro Maya repatriou esse trabalho ao comprar 500 originais em 1940. Agora o brasiliense pode ver uma parte dessa coleção no Museu dos Correios até o dia 25/10, domingo próximo. Corram que está lindo demais! E peçam o catálogo, que também está sensacional (eles não deixam à disposição. Tem que pedir para o mediador, dentro da galeria). Arte é história. E nossa história é sofrida, mas também é linda demais.

Cola lá!
O Rio de Janeiro de Debret – Coleção Castro Maya
Museu dos Correios (Setor Comercial Sul – Quadra 4, Bloco A, 256)
Até 25/10
Entrada gratuita

a filha pródiga à casa retorna

♫ Elza Soares | Mulher do fim do mundo

Minha última publicação foi há quase 10 meses. Vergonha eu teria se não estivesse numa situação de gentileza para comigo mesma. Já explico: a vida é tão louca, né? Mas uma loucura nível máximo. Loucura dessas que te pega pelo estômago, te revira inteirx, te bota de cabeça para baixo, depois olha no fundo dos seus olhos e diz: “Agora quero ver você se encontrar de novo no meio desse caos”. Caos nem sempre é ruim, pelo contrário. Acho que é o caos que move, que empurra, que incomoda e pede respostas a perguntas que você sequer tinha pensado antes. Nesses 10 meses de desaparecimento, estava ainda tentando me encontrar no meio do vendaval que me invadiu. Vendaval bom, mas que não deixa de desarrumar. Olhei em volta e não reconheci mais nada, só o caos que cuspia na minha cara. Curiosa que sou, me joguei no meio da confusão, me perdi para depois me achar. Não que agora eu tenha de fato me achado (alguém alguma vez se achou?). O que achei, na verdade, no meio da bagunça, foi uma caixinha de felicidade linda, que estava jogada num canto qualquer. Porque a loucura da vida também tem dessas. Está confuso? Sim. Mas a vida é assim mesmo. Caótica e linda assim mesmo.

Vou tentar ser menos etérea. Posso ser sincera? No último ano, venci um luto devastador – luto de amor, sabe? -, aprendi a dar um passo para trás às vezes, abri mão de um emprego estável e um salário bom. Joguei tudo para o alto e mergulhei num mar de incertezas (porque certeza dá muita sede). Todo esse processo doeu demais (e ainda dói se eu ficar pensando demais), mas fui me curando sozinha, pensando na vida, nas pessoas que me cercam, na vida que eu vivia e na que eu queria viver. “Viver é muito perigoso”, já disse meu querido Guimarães Rosa. É preciso ter coragem para encarar o dia que nasce de rosto erguido, é preciso força para construir a ideologia em que acreditamos. Consegui sobreviver e meu coração está feliz e tranquilo, como nunca tinha sentido antes.

Claro que tive algumas surpresinhas da vida no meio disso tudo: passei num mestrado em teoria e história da arte em outra cidade, mudei de estado, mudei de área, conheci novas pessoas, reencontrei amigos antigos, descobri flores e pássaros e ventos que me sopraram com tanta beleza que me deixei levar. Ainda estou por aí voando. Esse mestrado veio como um dos maiores presentes da vida. A graduação em jornalismo, apesar de ter me aberto alguns horizontes, me limitou muito também. Aprendemos a ser sérios demais, rápidos demais, diretos demais, apáticos demais, trabalhadores demais. E a parte boa da vida fica onde? Com todo o respeito aos meus amigos jornalistas workaholics que estão felizes com essa condição. Não é meu caso, mas a felicidade é diferente para cada um, né.

Ir para as artes foi como entrar no país das maravilhas. Virei Alice, cresci num piscar de olhos, fiz amizade com gatos e lagartas, conheci um mundo que me abriu não apenas horizontes, mas toda uma quinta dimensão de existência. Porque a existência poética te permite tudo. Não é maravilhoso? Vou deixar para babar mais sobre as artes em outro texto. No momento, meu interesse é justificar minha ausência aqui durante os últimos meses, justificar para conseguir um perdão gentil e talvez ser recebida com o calor da saudade. Voltei, mas voltei não para um lugar. Voltei para dentro de mim, cada vez mais. A abertura que as artes estão me propiciando vai ficar bem visível por aqui, nessa nova fase. Antes eu tinha uma preocupação de ser mais jornalista do que eu mesma, ter uma divisão geométrica dos temas, um compromisso com uma linha editorial que eu mesma criei. Mas o bom de criar regras é poder romper com todas, não é mesmo? Agora não me importo com isso. Me importo só em escrever sobre as coisas que me cercam e que acho interessantes. E a partir daí, tudo é possível.

Vou seguir meu caminho do jeito que ele se apresenta para mim; vou relatar as belezas que vejo, que me invadem, sem medo de errar, sem medo de ser feliz. Medo nunca fez bem a ninguém, não tem sentido algum cultivá-lo. Essa nova fase também tem um cenário principal diferente: saímos de Goiânia e agora é a hora e a vez de Brasília, a capital de todos os brasileiros. Seguindo nessa cidade de blocos e monumentos modernistas, cheia de flores e cigarras, com umidade abaixo de 15%, vou tateando possibilidades, me jogando nas oportunidades, cavando tesouros e belezas no dia a dia. Porque essa vida é linda demais. E tudo o que eu posso fazer é viver. Vem junto! Estou feliz de estar de volta 🙂