a filha pródiga à casa retorna

♫ Elza Soares | Mulher do fim do mundo

Minha última publicação foi há quase 10 meses. Vergonha eu teria se não estivesse numa situação de gentileza para comigo mesma. Já explico: a vida é tão louca, né? Mas uma loucura nível máximo. Loucura dessas que te pega pelo estômago, te revira inteirx, te bota de cabeça para baixo, depois olha no fundo dos seus olhos e diz: “Agora quero ver você se encontrar de novo no meio desse caos”. Caos nem sempre é ruim, pelo contrário. Acho que é o caos que move, que empurra, que incomoda e pede respostas a perguntas que você sequer tinha pensado antes. Nesses 10 meses de desaparecimento, estava ainda tentando me encontrar no meio do vendaval que me invadiu. Vendaval bom, mas que não deixa de desarrumar. Olhei em volta e não reconheci mais nada, só o caos que cuspia na minha cara. Curiosa que sou, me joguei no meio da confusão, me perdi para depois me achar. Não que agora eu tenha de fato me achado (alguém alguma vez se achou?). O que achei, na verdade, no meio da bagunça, foi uma caixinha de felicidade linda, que estava jogada num canto qualquer. Porque a loucura da vida também tem dessas. Está confuso? Sim. Mas a vida é assim mesmo. Caótica e linda assim mesmo.

Vou tentar ser menos etérea. Posso ser sincera? No último ano, venci um luto devastador – luto de amor, sabe? -, aprendi a dar um passo para trás às vezes, abri mão de um emprego estável e um salário bom. Joguei tudo para o alto e mergulhei num mar de incertezas (porque certeza dá muita sede). Todo esse processo doeu demais (e ainda dói se eu ficar pensando demais), mas fui me curando sozinha, pensando na vida, nas pessoas que me cercam, na vida que eu vivia e na que eu queria viver. “Viver é muito perigoso”, já disse meu querido Guimarães Rosa. É preciso ter coragem para encarar o dia que nasce de rosto erguido, é preciso força para construir a ideologia em que acreditamos. Consegui sobreviver e meu coração está feliz e tranquilo, como nunca tinha sentido antes.

Claro que tive algumas surpresinhas da vida no meio disso tudo: passei num mestrado em teoria e história da arte em outra cidade, mudei de estado, mudei de área, conheci novas pessoas, reencontrei amigos antigos, descobri flores e pássaros e ventos que me sopraram com tanta beleza que me deixei levar. Ainda estou por aí voando. Esse mestrado veio como um dos maiores presentes da vida. A graduação em jornalismo, apesar de ter me aberto alguns horizontes, me limitou muito também. Aprendemos a ser sérios demais, rápidos demais, diretos demais, apáticos demais, trabalhadores demais. E a parte boa da vida fica onde? Com todo o respeito aos meus amigos jornalistas workaholics que estão felizes com essa condição. Não é meu caso, mas a felicidade é diferente para cada um, né.

Ir para as artes foi como entrar no país das maravilhas. Virei Alice, cresci num piscar de olhos, fiz amizade com gatos e lagartas, conheci um mundo que me abriu não apenas horizontes, mas toda uma quinta dimensão de existência. Porque a existência poética te permite tudo. Não é maravilhoso? Vou deixar para babar mais sobre as artes em outro texto. No momento, meu interesse é justificar minha ausência aqui durante os últimos meses, justificar para conseguir um perdão gentil e talvez ser recebida com o calor da saudade. Voltei, mas voltei não para um lugar. Voltei para dentro de mim, cada vez mais. A abertura que as artes estão me propiciando vai ficar bem visível por aqui, nessa nova fase. Antes eu tinha uma preocupação de ser mais jornalista do que eu mesma, ter uma divisão geométrica dos temas, um compromisso com uma linha editorial que eu mesma criei. Mas o bom de criar regras é poder romper com todas, não é mesmo? Agora não me importo com isso. Me importo só em escrever sobre as coisas que me cercam e que acho interessantes. E a partir daí, tudo é possível.

Vou seguir meu caminho do jeito que ele se apresenta para mim; vou relatar as belezas que vejo, que me invadem, sem medo de errar, sem medo de ser feliz. Medo nunca fez bem a ninguém, não tem sentido algum cultivá-lo. Essa nova fase também tem um cenário principal diferente: saímos de Goiânia e agora é a hora e a vez de Brasília, a capital de todos os brasileiros. Seguindo nessa cidade de blocos e monumentos modernistas, cheia de flores e cigarras, com umidade abaixo de 15%, vou tateando possibilidades, me jogando nas oportunidades, cavando tesouros e belezas no dia a dia. Porque essa vida é linda demais. E tudo o que eu posso fazer é viver. Vem junto! Estou feliz de estar de volta 🙂

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