últimos dias de Debret no Museu dos Correios

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Uma das (várias) coisas incríveis de Jean-Baptiste Debret é sua capacidade de abarcar tanto o público-rato-de-museu quanto aquela parcela da população não muito fã de artes plásticas. Isso acontece porque o artista, apesar de francês, faz parte da história do nosso país, ou melhor, da construção da história do nosso país. Depois da mudança da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, nossa terra tupiniquim passou por mudanças grandes em um curto espaço de tempo. Além das construções de infraestrutura, criação de novos bairros, iluminação pública etc., é dessa época também a abertura da Biblioteca Nacional, o surgimento da imprensa no país e a chegada da Missão Artística Francesa, da qual fazia parte Debret.

Ele, que na Europa já frequentava as cortes reais, veio para o Brasil contratado pela coroa portuguesa para regitrar o cotidiano da nova cidade que se formava. Debret chegou pelo mar no Rio de Janeiro em 1816 e por lá ficou seus 15 anos seguintes. Entre todas as técnicas que dominava, escolheu a aquarela para retratar cenas rotineiras, paisagens pitorescas, funerais, celebrações, vestimentas, mapas da cidade etc. O traço delicado e as pinceladas aquareladas derretem o coração de qualquer um, por mais cético que seja.

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Claro que os motivos das obras também dão um peso dramático ao trabalho: na maioria delas, africanos escravizados seguem vivendo com tristeza, submissão e dor. A apatia é visível nos movimentos que Debret construiu, mas esperto que era, também mostrou resquícios da cultura africana que lutava para sobreviver naquela sociedade branca e catequisada. Os tecidos coloridos, as tatuagens, os rituais fúnebres (mesmo que fossem “católicos”), a beleza negra… está tudo ali, em papéis de 15x21cm. Incrível pensar em quanta história cabe em poucos centímetros de papel. Debret nos faz refletir sobre nossa história, nossa história tão cruel, nossa história que é negra mas que foi esbranquiçada desde sempre. O grande tesouro das aquarelas do francês é a cultura negra, tão linda, tão forte, tão sofrida.

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A exposição conta com 120 aquarelas da coleção Castro Maya. Depois que Debret voltou para a França, ele organizou todo o trabalho em um publicação batizada de Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Durante anos as obras ficaram pelo velho continente, mas o mecenas e colecionador de arte Castro Maya repatriou esse trabalho ao comprar 500 originais em 1940. Agora o brasiliense pode ver uma parte dessa coleção no Museu dos Correios até o dia 25/10, domingo próximo. Corram que está lindo demais! E peçam o catálogo, que também está sensacional (eles não deixam à disposição. Tem que pedir para o mediador, dentro da galeria). Arte é história. E nossa história é sofrida, mas também é linda demais.

Cola lá!
O Rio de Janeiro de Debret – Coleção Castro Maya
Museu dos Correios (Setor Comercial Sul – Quadra 4, Bloco A, 256)
Até 25/10
Entrada gratuita

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