ode à preguiça (ou: sejamos todos preguiçosos!)

♫ Caetano Veloso | Samba e amor

7h30, o despertador tocou. Silenciei depois de derrubar tudo do criado mudo com minha mão sonolenta. Abri o olho, vi o sol já gritando na janela, pensei se atendia ao chamado do dia ou se me dava de presente aquela preguiça. Porque preguiça é uma dádiva, um carinho, um agrado gostoso para o corpo cansado. Sem prensar muito, me rendi. Acordei duas horas depois do planejado. A lista de tarefas na minha escrivaninha nem tinha mais espaço disponível: tantas leituras, ligações a fazer, aula a planejar, lugares para ir, contas a pagar… Tantos deveres, poucos direitos. Resolvi ler só um dos textos da minha lista, um que tinha um título bastante sugestivo: Elogio à preguiça, de Adauto Novaes. E aí, mermão, meu mundo virou de cabeça pra baixo. Ficou lento, devagar, gostoso. Assumi minha lentidão com orgulho. Porque a pressa cotidiana nos impõe certas condições que nos prendem e nos cegam. Não é normal não termos tempo para o lazer, não é normal corrermos para cima e para baixo sem prestar atenção na cidade ao redor, sem prestar atenção nas pessoas que passam por nós. Não é normal estabelecermos uma rotina de acordar-trabalhar-dormir. A liberdade de pensamento pede tempo.

E vamos nos dar mais tempo! Roubando as palavras da minha querida professora Karina Dias, “o movimento do pensamento humano só pode ser preguiçoso”. No texto de Adauto, ele fala que, diferentemente da ideia clichê que se tem do preguiçoso, de um cara à toa, sem nada para fazer, o preguiçoso é, na verdade, um cara muito ocupado. Porque a preguiça só existe se existir também os deveres que são deixados de lado. O preguiçoso é aquela pessoa que tem sempre mil coisas para fazer, mas que se deixa distrair por outras coisas. Paul Valéry diz que “é preciso ser distraído para viver”. Sejamos distraídos! E nessa cidade cheia de flamboyants floridos, é fácil se distrair…

Impossível pensar a preguiça sem uma oposição ao trabalho. Pensando nos primórdios do pensamento filosófico, os gregos defendiam o ócio criativo. Mas aí veio Hegel e acabou com tudo, rs. Foi ele o primeiro a pensar a questão do trabalho. Para o alemão, é o trabalho que faz do ser humano um animal histórico, é por meio do trabalho que construímos nossa realidade e a modificamos e, dessa forma, construímos a história. Sem trabalho, somos ahistóricos. WTF? Com todo respeito aos hegelianos, claro. A partir desse pensamento, podemos então contrapor essa ideia e pensar que, sem trabalho, somos mais próximos dos animais do que do próprio ser humano. Sem trabalho, assumimos uma animalidade. Há muitos autores que problematizam “animalidade”, mas gosto de uma citaçãozinha de Derrida em O animal que logo sou: “o pensamento do animal, se pensamento houver, cabe à poesia”. Dessa forma, podemos pensar na preguiça como uma redenção ao pensamento poético. Preguiça é poesia ❤

Mas por que então que o preguiçoso incomoda tanto? Porque negando o trabalho, ele nega também todo o sistema de exploração e consumo que vem com ele. O preguiçoso não consome, não reivindica reconhecimento, não tem vaidade; ele está em outro tempo, fora da correria geral, nega sua condição domesticada e não se deixa atropelar pela multidão. O preguiçoso é habitado pelo próprio eu. Quer coisa mais bonita que isso? E diferentemente do que pensam também, a preguiça não anestesia, muito pelo contrário. É ela o que traz de volta. Porque quanto mais a gente se deixa levar, mais a gente quer voltar, não é mesmo? Sejamos preguiçosos, meus caros, nos deixemos levar pelo devaneio.

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