o dia em que virei caruruzeira (ou: receita de acarajé)

♫ Os Tincoãs | Ogundê

acarajé

Dias desses, cheguei como quem não quer nada na casa de dois amigos meus, que me receberam com avental de chita, turbante no cabelo, blusa da Clara Nunes e Caymmi tocando na sala. Na cozinha, camarões secos, feijão fradinho, litros e litros de dendê e mais um monte de ingredientes que fariam parte do ritual do acarajé. Digo ritual porque olha… Que coisinha mais difícil e demorada de ser feita! Mas já chego lá. Primeiro é importante dizer que quase caí para trás quando, de repente, me vi na Bahia. Ê terra boa… Ê saudade… Bahia faz muito parte da minha vida, seja pelas lembranças de férias em família; seja pela comida que emplaca fácil umas 10 receitas na minha lista de preferências (desde suco de cacau a moqueca de frutos do mar… ai, deu fome); seja pela música que, quando ouço, bate lá no fundo do coração. Caetano, Bethânia, Gal, João Gilberto, Tom Zé, Gil, Clara… são tantos os nomes… e não posso me esquecer também de Olodum e Timbalada porque ninguém é de ferro, rsrs.

Amo a Bahia! Amo o interior vasto, quente, imenso. Amo cruzar o estado de carro, esperar ansiosamente o mar aparecer no horizonte, parar nas cidadezinhas para comprar quitutes baianos. Ê, Bahia! Como é linda. Você pode imaginar então a minha felicidade quando fiquei sabendo que, naquela noite, ia rolar acarajé caseiro! Soltei fogos de artifício, mas só antes de perceber armadilha que me aguardava.

Olha só: acarajé é demorado, cheio de etapas e particularidades. Nunca mais reclamo de pagar R$ 10 no acarajé da feira. Deveria custar R$ 50. Chico, o responsável pela noite do acarajé, disse que ele foi motivo de chacota quando falou que faria acarajé. “Só baiana de acarajé faz acarajé! Nenhum baiano faz acarajé em casa!”. Mas ele não se deixou derrubar, pelo contrário. Era um motivo de honra terminar. Durou dois dias a receita, porque na primeira noite, gastamos todas as energias descascando feijão fradinho, rs. Demoramos para descobrir uma técnica que facilitasse a tarefa, mas da metade pro fim, fluiu melhor. Recomendamos deixar de molho na água algumas horas e depois esfregar entre as mãos para soltar a pele. Daí você pega uma peneira e pesca as casquinhas que vão boiar. Pronto. Agora você pode realmente começar a fazer seu acarajé. Se liga na receita:

Massa
500g de feijão fradinho
500g de cebola (mas achamos que pode ser menos…)
2 litros de dendê para fritar

Descasque o feijão e bata tudo no processador, mas não bate muito não! Se não fica a massa fica aguada e não dá certo. Ela tem que ficar mais consistente. Depois coloque as bolinhas para fritar no óleo de dendê.

Vatapá
500g de camarão seco
1 litro de leite de coco
150g de amendoim torrado sem pele
150g de castanha de caju
coentro
2 xícaras de dendê
10 pães franceses umidecidos
1 pedacinho de gengibre

Primeiro: dessalgue o camarão! Deixa de molho lá na água, esqueça de um dia para o outro. Não dessalgamos e tivemos um pequeno (grande) probleminha com o sal, mas deu certo no fim. Depois tire a cabeça dos camarões e bata tudo no processador: os camarões, as castanhas, o pão, leite de coco… bata tudo e depois jogue na panela com o dendê e refogue. Mexa por 20 minutos sem parar (haja braço!).

Caruru
100 quiabos (receita da Bethânia… rsrs.)
1 cebola
alho
gengibre ralado a gosto
500g de camarão moído
200g de castanha de caju moída
1 xícara de chá de dendê
suco de 1 limão
água quente

Pique o quiabo em rodelas. Aqueça o dendê e refogue a cebola e o alho. Acrescente o gengibre e o quiabo. Deixe refogar. Depois acrescente o camarão, as castanhas e deixe refogar mais um pouco. Adicione a água até cobrir. Deixe cozinhar até a semente do quiabo ficar rosada. O limão você usa para controlar a baba do quiabo (achei sensacional!). Vai colocando o limão aos poucos durante o cozimento.

Agora é só abrir o bolinho de acarajé, colocar o vatapá, o caruru e morrer de amores! O ideal seria colocar uma saladinha de tomate também, mas a receita foi tão cheia de percalços que desistimos. Mas fique à vontade!

P.S.: Não rolou foto do acarajé pronto porque a cozinha ficou um caos e porque estávamos todos famintos depois de horas no fogão. Não sobrou acarajé para contar história, rs.

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