elogio à arte não-bela

♫ Lou Reed | Satellite of love

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Perguntei para um amigo se ele gostava de arte contemporânea e a resposta que eu tive foi: “Gosto do que é belo”. Lembrei de todas as vezes que ouvi algo parecido e fiquei pensando no quanto a arte, por mais que tenha mudado muito ao longo de milênios, ainda é refém do ideal de perfeição da antiguidade. Vou me corrigir: talvez não da antiguidade (a arte como cópia quase exata da realidade), mas do sublime romântico. Desde o início do século passado, graças a Duchamp e seu mictório principalmente, o ideal de beleza foi colocado à prova. Para os que não conhecem a historinha, conto rapidamente: na década de 1910, rolava uma Nova York uma associação chamada Sociedade dos Artistas Independentes, formada por artistas e intelectuais que iam contra uma instituição conservadora e asfixiante, a National Academy of Design. Daí que essa sociedade organizou uma exposição em que cada associado poderia participar com um obra desde que pagasse uma taxa de US$ 5. O francês Marcel Duchamp mandou um mictório, desses de banheiro masculino mesmo. Não, ele não fez o objeto. Ele passou numa loja de materiais de construção (isso sou eu divagando, não sei onde ele conseguiu, só sei que ele não fez!), comprou o objeto e mandou pra Sociedade. Não foi aceito, o que foi muito estranho, porque a regra era clara: seria exposta toda obra de associado que pagasse US$ 5. Essa “técnica” artística de pegar objetos já existentes e expor com mínimas interferências chama readymade e mudou o rumo da arte para sempre.

Isso porque a arte se libertou da obrigação de ser bela. E se ela não tinha mais que ser bela, qual seria então sua função? Alguns autores autores vão falar que a partir de então, a arte só poderia ser explicada pelos caminhos da filosofia, que dá liberdade de pensamento aos que se propõem à reflexão. Assim, numa sociedade administrada igual a nossa, de meios de comunicação de massa que nos induzem a pensar de tal forma e consumir de tal forma, a arte nos dá alguns momentos de liberdade a partir da sua reflexão. Ao olharmos uma tela e comentarmos com um amigo, por exemplo, o diálogo vai conseguir fugir do nosso “compra, compra, compra” constante. Podemos gostar ou não da obra, tentar entender os motivos de criação do artista… Todos esses pensamentos são importantes para estimularmos nossa liberdade de raciocínio que nos escapa na rotina capitalista.

Tudo isso que contei é na verdade para abrir os olhos e o coração das pessoas que dizem que “gostam do que é belo” nas artes. A arte que foge disso é muito legal! Contestar limites, ideias, paradigmas… Perturbar é bom! É fazer sair dessa inércia monótona que estamos. E para estimular esse “olhar aberto”, convido todos para a exposição VI Pós-Happening, no Espaço Piloto, na UnB, aberta até dia 17/11. Trabalhei na organização, produção e curadoria e, modéstia à parte, está bem bacana! A exposição faz parte da programação do evento acadêmico dos alunos da pós-graduação das Artes, o ComA, que também está demais. Na galeria, 27 artistas mostram trabalhos recentes que rompem com um limite a priori: entre o nosso eu e o mundo que nos rodeia. Para os mais reticentes, tem coisas belas no sentido romântico também, rs.

Cola lá!
VI Pós-Happening
Espaço Piloto – UnB
Até 17/11
Entrada franca

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