Das saudades do meu coração

Essa é para meus companheiros viajantes do mundo: De onde vem nossa vontade de ir? Essa vontade tão forte, tão insaciável? Parece que há algo pulsando em nossa alma, algo gritando, pedindo para ir, para correr, para sair do lugar; algo que nunca é calado, mesmo quando atendemos seu clamor. Quanto mais vamos, mais temos vontade de ir além. Vontade de perder o lugar; de entrar em outro tempo; de sentir, ao mesmo tempo, que não pertencemos ali, mas ter a certeza de que somos do mundo. É muita contradição, não? Sim, mas nada mais humano. Talvez essa vontade pulsante seja só a vontade de nos sentirmos mais humanos, nos encontrarmos com nós mesmos. Talvez.
Meu querido Bachelard fala que esse desejo pela errância é natural do ser porque o nosso próprio ser não pode ser fixado. Somos hesitantes por natureza, não temos lugar. Antes de tudo, fomos nômades nos primórdios da humanidade. A fixação veio só milênios depois. Mas nossa alma, essa continua flutuante. Quer cair no mundo e quer que o mundo caia nela, quer misturar tudo até se perder ainda mais, não saber o que é mundo e o que é alma, porque realmente, no coração dos viajantes, não há mesmo como saber. Nossa alma tá no mundo e vice-versa.
Mas da mesma forma que a vontade de ir sempre aumenta, a vontade de voltar aparece simultaneamente (contradições humanas de novo). Quanto mais saímos, mais voltamos, mas não voltamos para um lugar, voltamos para nós mesmos. Nossas andanças pelo mundo, mais do que uma procura por lugares diferentes, culturas diversas, é uma busca pela nossa essência mais íntima, que vaga por aí. Mas uma hora o corpo cansa, a mente se esgota e o coração pede para voltar.
Meu coração está no Brasil, no cerrado, naquele Planalto Central que deixa qualquer Alpe Suíço no chinelo. Depois de dois meses longe, dando voz à minha alma e liberdade aos meus pés, não consigo mais calar o pedido tão sincero que vem de dentro: quero voltar, Brasil. Meu lugar é aí. Estou numa ausência de calor, de cor, de sal, de sol de coração pra sentir. Como disse Darcy Ribeiro, lugar melhor não há; o problema é só a elite ruim, ranzinza, que não deixa meu país ir pra frente. Mas isso vai mudar. Certezas do meu coração saudoso.
Só mais um mês e estou de volta 🙂