De quando Paris roubou meu coração

♫ Madelaine Peyroux | Weary Blues

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Quem leu meu primeiro texto sobre Paris sabe que minha experiência não foi muito boa. Os parisienses sabem ser grossos e arrogantes num nível exagerado. Quando pensei em voltar, me adiantei e entrei num curso de francês para, no mínimo, conseguir xingar quem me maltratasse. Deu certo! Saber um mínimo da língua pareceu amaciar os corações de gelo daquele povo que se acha muito superior que os outros (cá entre nós, se eu tivesse uma Revolução Francesa na minha história, acho que seria bem metida também…). Minha segunda vez em Paris foi bem mais gostosa: me deixei levar sem tensões pelo momento e acho que me apaixonei.

A parte boa também foi de não ter a obrigação de visitar os pontos turísticos batidos. O Louvre já ficou pra trás, a Torre Eiffel encanta mais de longe do que de perto, não há mais necessidade de perder um dia inteiro em filas de museus e você pode só fazer o que Paris te oferece de melhor: flanar de café em café, entrar nas livrarias que aparecem pelo caminho, tomar uma taça de vinho vendo o movimento da rua… Como eu disse na coluna d’O Beijo, foi justamente por esse ambiente que atiça a vontade de errância que a cidade atraiu artistas e poetas de todos os cantos do mundo da virada do século XIX para o XX. Até hoje, ela tem esse poder. O melhor de Paris é se perder em Paris 😉

Para quem chega de países de língua inglesa ou alemã pode estranhar a confusão latina da capital francesa. Ela me estranhou da outra vez… Achei tudo caótico, tudo meio sujo, o metrô fedendo xixi… Mas dessa vez, não sei se já estava muito saudosa do Brasil depois de quase dois meses longe de casa, achei a bagunça uma alegria. Somos latinos, com toda dor e felicidade que isso inclui. Falamos alto, não temos paciência, xingamos no trânsito, fumamos muito, cuspimos no chão. Isso porque gostamos de nos sentir à vontade mesmo em locais públicos, e o senso de civilidade fica atrás do nosso próprio conforto. “Eu sou assim e quero fazer isso, e se você não gostou, vá à merda”. É mais ou menos isso o nosso pensamento, rs. O que alguns vêem como falta de educação, eu vejo hoje como um exercício de liberdade (claro que há limites… o importante sempre é não esbarrar na liberdade do outro. Se isso não acontece, tá tudo bem e vá à merda com seu julgamento, rs).

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A rede de transporte público da cidade é muito eficiente. Como em Milão, recomendo comprar dez tickets de uma vez porque sai mais barato. E o bilhete pode ser usado tanto no metrô quando no ônibus. Em Milão, entretanto, você pode usar o mesmo passe diversas vezes num intervalo de 90 minutos. Em Paris isso não acontece. Pra cada viagem, um ticket. Há também a opção de comprar o bilhete semanal, que sai em conta, mas ele, por algum motivo muito estúpido, vale apenas de segunda a domingo, necessariamente nessa ordem. Se você chega na cidade na quarta, por exemplo, não pode comprar para usar até a terça seguinte, porque expira no domingo de qualquer forma. Como já disse da outra vez também, a capital francesa conta com um sistema de empréstimo de bicicletas muito eficiente, o Vélib. Há pontos em cada esquina e você faz o cadastro ali mesmo. É muito barato, além de uma forma original, sustentável e muito charmosa de conhecer a cidade 🙂

Paris foi construída em distritos espirais. O mais central é o 1º arrondissement e os outros vão se afastando gradativamente e sucessivamente. Geralmente as dicas sobre hospedagem falam que o importante é ficar até o 10º arrondissement, o que é uma besteira. O importante é ficar relativamente perto de uma estação de metrô. É incrível o quanto é possível economizar com hospedagem entre o 10º e o 13º, por exemplo, sem aumentar a dificuldade de se chegar ao centro. Tenho um amigo que mora no 20º e para ele é muito tranquilo se locomover diariamente na cidade. Além disso, conhecer bairros mais afastados e menos turísticos é sempre mais interessante do que ficar no olho do furacão. Minha opinião.

Agora, vamos aos passeios legais?

❤ Primeira dica: se perca sempre. Quando não souber para onde está indo, sinta-se feliz e aproveite a paisagem. Quer apostar que vai encontrar algo incrível e inesperado pelo caminho?

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❤ Quartier Latin: ai, ai… só de pensar já dá uma alegria de viver. Bairro cheio de cafés, de universitários, da Sorbonne, da minha livraria preferida do mundo: J. Vrin (6 Place de la Sorbonne), especializada em filosofia, cheia de títulos que você estava procurando mas que não achava em lugar nenhum. Cuidado para não estourar o cartão de crédito. Não que tenha acontecido. Só avisando mesmo. Para quem gosta de cinema, uma das melhores ruas da sétima arte também está ali: Rue Champollion. E se você sair na estação Cluny-La Sorbonne, vai dar de frente a uma feirinha de quitutes gostosos e outras bugingangas.

❤ Shakespeare and Co. (37 Rue de la Bûcherie): falando em livrarias do coração, essa aí tem um charme à parte. Especializada em literatura inglesa, na década de 1920, era pondo de encontro entre escritores finos, como Hemingway, Joyce, Fitzgerald… Alguns poetas chegaram a dormir lá e ainda hoje qualquer pessoa pode pedir um leito de graça em troca de algumas horas de trabalho na livraria. O lugar, em frente ao Sena, mais parece um labirinto antigo, com paredes de madeira, escadas antigas, estantes empoeiradas. No andar de cima, algumas camas entre os livros, um piano disponível para quem quiser tocar. Dá vontade de morar ali. Livraria muito querida.

❤ Centre George Pompidou: o único museu que eu revisitei e revisitaria mil vezes. Especializado em arte moderna e contemporânea, com um acervo mais que incrível que inclui todas as vanguardas e algumas neovanguardas, além de trabalhos bastante curiosos, o Pompidou ainda possui a obra mais linda da cidade: a vista de Paris. A Torre ao longe, a Sacre Coeur no horizonte, os milhares de telhados da capital soltando fumacinhas, o céu arrebatador. A lojinha também é demais, com objetos e livros ótimos. Mas cuidado com o limite do cartão de crédito (não custa repetir).

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❤ Jazz: a Rue des Lombards tem vários bares e cafés de jazz com shows diários. Minha sugestão é a jam session do Baiser Salé que rola todo domingo e segunda-feira (às vezes às 19h, às vezes às 21h… eles avisam na porta). Minha experiência mais francesa foi ouvir jazz num salão pequeno e abafado. Muito amor. Quando for voltar pra casa, antes de correr para a estação de metrô (Châtelet está logo ali), dê só uma olhadinha para a Torre da ponte au Change. Veja o céu escuro, as luzes piscando, a água correndo, os carros passando, o ar frio batendo no rosto…

❤ Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris: ninguém fala desse museu e é muito lindão, a começar pelo prédio grandioso e pela vista deslumbrante bem de frente para o Sena e a Torre. Além do mais, é gratuito e tem obras super interessantes. Enquanto nos outros museus você espera mais de hora na fila, nesse você entra direto.

❤ Galerie Vivienne: no século XIX, Paris passou por um período de intensas mudança econômicas e social. O avanço da indústria e da burguesia criou um apelo pela novidade e pelo luxo e um dos resultados disso foi o surgimento das galerias de comércio na cidade, com longos corredores cintilantes e elegantes, vitrines atraentes e um charme que até hoje é preservado, apesar de termos avançado quase dois séculos desse momento. A Galerie Vivienne é uma delas e era um dos lugares favoritos do Julio Cortázar. Fui lá por conta dessa informação e até hoje suspiro pensando nela. Lá dentro, escondida, há um livraria de livros antigos e raros, onde passei alguns momentos namorando as estantes. Na saída, sentei num café e fiquei observando o movimento. Notei um pequeno portão, discreto, quase despercebido, por onde pessoas entravam e não voltavam mais. Resolvi seguí-las e, para minha surpresa, depois de um corredor estreito, caí no meio dos jardins do Palais Royal. No coração caótico de Paris, um refúgio arborizado, com fontes de água e barulho só de pássaros. Pessoas lendo, namorando, observando a suspensão do tempo. Foi ali que percebi que estava apaixonada. E é amor eterno, amor verdadeiro.

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❤ Domingo no parque: pegue o metrô e saia na République. É muito curioso o sentimento que a praça consegue suscitar… O monumento cheio de interferências, seja de críticas ao capitalismo, à religião, à xenofobia, à liberdade teorizada mas não praticada, seja de apoio às vitimas dos atentados (Charlie e Bataclan). Em meio a tudo isso, skatistas fazendo manobras, pessoas aguardando alguém, a vida seguindo alheia a todo aquele vômito ideológico. Depois desse momento de reflexão, desça pro canal St. Martin (se estiver no verão, vai ser ainda mais lindo). Como já dizia meu querido Guimarães Rosa, perto de muita água, tudo é feliz. Uma torta de maçã no Chez Prune (36 Rue Beaurepaire) combina muito bem.

❤ Tem algum conhecido que mora na cidade ou conhece alguém que conhece outra pessoa que mora lá? Perca a vergonha e tente fazer contatos. Se tiver sorte, vai acabar numa festa dançando Jorge Ben até às 5h da manhã, em um apartamento no centro de Paris, com uma vista deslumbrante e pessoas legais 🙂

❤ Palavrões para o caso de algum parisiense te encher o saco:

  • Fils de pute! (“Fís de pute”, para o caso de um homem)
  • Fille de pute! (“Fíe de pute”, para o caso de uma mulher)
  • Connard! (“Conár”)
  • À merde! (Fala do jeito que se lê mesmo)

Ê, Paris… já estou sonhando com a volta, minha querida.

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