Londres desconhecida parte 1: tesourinhos do norte

♫ Madness | Our house

Já ficou comum amigos meus, quando estão de viagem marcada para Londres, me pedirem dicas que fujam dos passeios batidos turistões da cidade. Para além de Big Ben e London Eye, há muita coisa legal para se fazer (aliás, sinceramente, a parte boa da capital inglesa passa longe dos monumentos famosos). Visitantes de passagem costumam concentrar suas atenções no centro e no sul da cidade, vendo pontes, prédios, palácios, musicais careiros. Mas o lado mais legal, na minha opinião, são os pubs locais, as baladas da periferia, os parques desconhecidos… Se você é do tipo de gosta de fugir dos guias clichês e se aventurar por aquele bairro que ninguém ouviu falar, você é dos meus. Então cola em mim que é sucesso 😉

Pensei em uma série sobre os lugares desconhecidos de Londres e vou postando aos poucos, começando pela minha região do coração: o norte. Ele costuma ser mais reservado aos londrinos de verdade, com quase nenhuma atração turística, mais residencial, mas com lugares escondidos bem legais para se visitar, frequentados quase sempre por moradores da região (londrinos roots). Amy Winehouse morou aqui, um dos irmãos Gallagher também (não sei a diferença entre eles, não me julguem), Kate Moss, Terry Jones (do Monty Python), Bryan Cranston (o Heisenberg de Breaking Bad), a banda The Kinks já gravou clipes por aqui e a Madness dedicou todo um álbum para a região, o NW5, código postal das redondezas. Para além de um lugar frequentado por nativos, roqueiros e celebs doidonas, o norte tem uma graça toda especial, que vai desde bares animados a cemitério marxista. Se ficou animado, pega o papel, a caneta, uma tesoura sem ponta e anota tudo que você passa de ano. Se liga na lista 🙂
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Camden Town: ok, eu sei que não tem nada de desconhecido em Camden… É a parte mais turista do norte e provavelmente já está na sua lista de coisas a fazer na cidade. Mas mesmo batido, é um batido diferente, mais underground… Não é em qualquer lugar que você vê senhoras punks de cabelo verde e tatuagem na cara ou uma loja que vende roupas feitas só com a fibra da maconha. O lugar é bombante, mas de um jeito que só o norte sabe ser… Quase todas as fotos com a Amy chapada caindo pelas ruas foram flagradas aqui. À noite, as coisas funcionam até mais tarde, os pubs ficam lotados, as casas noturnas animadas, as ruas movimentadas… e ainda tem o canal pra quem tá no erro e busca salvação. Além de alegria, você acha muitas lojas de discos, muitas lojas de quinquilharias baratas (melhor lugar para souvenir), muita comida de rua gostosa e barata. Vá para Camden Lock. Depois me conte se foi feliz por lá 😉
Regent’s Canal: citei ele antes, mas ele merece um tópico à parte. É tão lindo! Parece uma partezinha de Amsterdã no meio de Londres… seja pelos barcos feitos de moradia, seja pela marola, seja pelo ar libertário. Descendo em Camden, você pode andar até King’s Cross de um lado ou até Regent’s Park do outro. Vão rolar altos túneis com graffiti maneiros. Se tiver no verão, vai ser uma festa só! Gringos despirocam no verão, rsrs. E indo até King’s Cross, você vai sair numa parte bem legal também, Granary Square, cheio de bares, instalações luminosas e, se tiver sorte, eventos gratuitos nas margens do canal. É muito amor.
Tapping the Admiral (77 Castle Road): esse pub fica cercado só de casas. À caminho, pode se ter a ideia de que vai ser desanimado, mas confie. Dependendo do horário, pode ser difícil achar lugar para sentar, mas dê pinta de inglês nativo e tome sua pint em pé mesmo, ouvindo clássicos dos anos 80. Tem um jardim bem charmosinho para os fumantes, com luzesinhas bonitas e aquecedor (faz toda a diferença). No bar há uma placa que resume o astral do lugar: “Crianças desacompanhadas serão vendidas como escravas” hahaha E provavelmente você vai ter que disputar as poucas cadeiras vazias com o gato preto que se acha o dono do espaço (talvez ele seja mesmo).
Southampton Arms (139 Highgate Road): e falando em pubs legais, esse é o meu preferido de todos. E não é só porque ele fica bem em frente à minha casa e é só atravessar a rua, o que facilita a volta quando estou trocando os pés, rsrs. Esse lugar só serve rótulos locais independentes e fazem uma rotatividade para que sempre haja novidade na casa. Você pode inclusive sugerir algum rótulo que queira. Nas terças e quartas rola “piano night” a partir das 20h. Quinta é dia de quiz, costume comum de bares bem londrinos. O jardim de fumantes deles é bem lindo também e, se a fome bater, sugiro um hambúrguer ou minha paixão: pork pie. Delícia demais. O que faz com que ele seja ainda mais especial é o preço, mais barato que a média em geral. O único detalhe é que não aceitam cartão.
The Pinapple (51 Leverton Street): outro pub que tem meu coração, mas por outro motivo: a cozinha. Eles têm um cardápio de comida tailandesa que olha… É um amor meio masoquista… A pimenta forte não tem dó. Cada garfada é uma paixão e uma dor simultâneas hahaha A decoração também é muito linda.
The Queen of Sheba (12 Fortess Road): já comeu comida etíope? É sensacional por dois motivos: primeiro pelo óbvio, o gosto; segundo pelo ritual de ser uma comida compartilhada. Você pede porções aleatórias, que podem ser, por exemplo, lentilhas, vegetais ao curry e carne de carneiro. A atendente traz uma travessa linda, bordada e colorida, forrada com um pão fino bem azedo. As porções são servidas em cima do pão e todo mundo divide o mesmo prato, comendo com as mãos. Muito lindo e delicioso. Não deixe de experimentar uma cerveja etíope 🙂
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Gulshaan (343 Kentish Town Road): sou gulosa… se estiver na vibe comilança, tente esse indiano bem em frente à estação de Kentish Town. Tudo é delicioso e o preço é pagável.
Bistro Laz (1 Highgate West Hill): ainda em restaurantes, esse lugar é um amor. Pequenininho, com uma decoração toda cheia de coisinhas, barcos, vinhos, luzes, o restaurante tem um cardápio incrível que serve desde desjejum a jantar. Eu, particularmente, adoro ir lá de manhã e comer aquele english breakfast firmeza ou ovos beneditinos feitos com perfeição. Mas as opções são várias: tem café da manhã turco, mediterrâneo, florentino ou simplesmente uma torrada com chá.
E.mono (287 Kentish Town Rd): apenas o melhor kebab ever!
O2 Forum Kentish Town (9-17 Highgate Road): essa casa de shows tem muita coisa legal na agenda, desde apresentação das drag queens de Ru Paul’s Drag Race a banda de Noel Gallagher ou grupos metaleiros. Vale a pena conferir a programação no site e tentar comprar alguma coisa com antecedência (os ingressos sempre esgotam rapidamente).
Hampstead Heath: parque enorme onde ingleses levam suas crianças ou seus cachorros ou todos juntos para um passeio de domingo. A vista é linda… Por ser numa região alta, dá para ver os prédios grandes mais recentes e a London Eye no horizonte. Acho esse parque mais legal do que Hyde Park, turistão demais. Esse é mais local, mais cheio de árvores e bosques. Se estiver na animação, ande até o meio dele, procurando por Kenwood House. É uma mansão antiga que hoje funciona como museu e tem uma cafeteria sensacional. Um café-da-manhã de domingo por lá é só beleza.
Highgate Cemetery: o maior morador do norte de Londres vive a alguns palmos debaixo da terra: Karl Marx. Divo como sempre, Marx não poderia ter um cemitério melhor. Eu gosto de visitar cemitérios e confesso que esse talvez seja um dos mais lindos que já conheci (se você tem um lado forte hippie como eu, vai concordar). O lugar mais parece um bosque. Você anda por entre as árvores altas comendo blackberries que crescem feito praga pelos caminhos. Além de Marx, há várias outras personalidades importantes, especialmente escritores e pensadores. Mas, depois de Marx, para mim, a segunda pessoa mais importante enterrada lá é Lucia Fleury Nogueira: born in Goiânia, died in London. Quase caí para trás quando vi, ao lado da lápide do Eric Hobsbawn, uma conterrânea minha. É muita fineza!
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Quando vier para Londres, vá para o norte! Descubra outros lugares por conta própria também. Lembre-se que o melhor de Londres é se perder em Londres, rs. Mas olhe sempre para os dois lados antes de atravessar a rua. Com essa mão inglesa ridícula (para quê, não é mesmo?) nunca se sabe se está olhando para o lado certo ou não, então, na dúvida, olhe para os dois! Boa caminhada 🙂
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