Carta de Carlos Pizarro a sua filha (ou: Carta para nossas vidas)

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Carlos Pizarro foi um guerrilheiro colombiano, comandante do grupo M-19, responsável por assinar o acordo de paz com o governo e entregar as armas do movimento como prova de sua palavra. Depois do feito, candidatou-se à presidência da Colômbia, mas foi assassinado durante a campanha – um crime que até hoje, 26 anos depois de sua morte, não foi esclarecido. Sua filha Maria José Pizarro, que foi separada ainda pequena de seu pai pela perseguição política, ainda sofre com um luto que não veio: ainda sonha com ele, conversa com ele diariamente, imagina se encontrando com ele. Na tentativa de encerrar essa angústia, ela tem travado nos últimos anos uma luta pelo esclarecimento do crime, que sabe talvez ser algo impossível de alcançar. O trabalho de investigação inclui a reunião de diversos vídeos, fotos, dossiês e documentos mil, que são mostrados no documentário lançado no ano passado na Colômbia e que chega agora no Brasil no circuito dos festivais de cinema.

“Pizarro”, do diretor Simón Hernandéz, é emocionante do início ao fim, mostrando imagens dos acampamentos de guerrilha, das prisões, da anistia, da força popular que Pizarro tinha, além de depoimentos da família, especialmente de Maria José, que é a protagonista da produção. O filme acompanha sua luta pessoal intercalando com a luta político-social de seu pai. Um dos momentos mais tocantes é a leitura de uma carta que Pizarro enviou para Maria José quando ela tinha apenas cinco aninhos, uma carta para preencher a ausência dele em sua vida, por toda a vida, porque no fundo ele sabia que não se encontrariam mais.

A carta original em castelhano está aqui. Abaixo, está minha tradução. Já li mil vezes e lerei mais mil vezes. Ensinamentos de vida de um pai esquerdista; ensinamentos de vida para todas nós.
Minha filhinha,

Tenho em minha alma um montão de sorrisos e mariposas para você. Algum dia juntaremos os sóis que você desenha com os sóis que eu faço nascer e teremos para nós dois, para nós três e para todos, uns rostinhos felizes. As pessoas vão olhar para nós e vão desejar nossos sorrisos. Esse dia chegará; mas agora que temos que continuar distantes um do outro, lembre-se sempre de que não importa onde você esteja e o que faça, eu te amei antes de você nascer e hoje que te conheço, hoje que não é estranha aos meus olhos, a minhas mãos, aos meus sonhos, eu te amo ainda mais.

Neste tempo que estamos distantes, não me esqueça. Não deixe que eu morra em seu coração e em sua vida. Quando você estiver triste, quando se sentir infeliz em sua vida, pense em tudo o que você tem e nunca no que lhe falta; pense na quantidade de gente que te ama, as vovós, os tios, os primos e, acima de tudo, a mamãe, a Claudia e eu, que te amamos sem fronteiras. Pense que a felicidade está ao alcance de suas mãos, alegre-se com sua beleza e a cultive, e sobretudo, cuide de sua inteligência, cuide da beleza que está dentro de você, a beleza que só você pode fazer crescer conhecendo o mundo e os homens, lendo apaixonadamente e estudando, que seus olhos brilhem porque dentro de você o fogo se matém aceso e cálido. Seja sábia, meu amor. Ser sábio é conhecer em cada época tudo o que ela nos reserva, viver intensamente cada caminho e cada desvio, saber sempre que o conhecimento é uma árvore infinita onde sempre se escala; ser sábia, minha filhinha, é saber gozar das coisas pequenas da vida e saber estar sempre ao lado dos ideais justos. E seja boa, filha minha, que sua alma sempre esteja vestida de festa para receber o amor e para fazer brotar o amor. Nada resiste a uma alma que vai de festa pela vida. O riso provoca o riso. O amor chama o amor. Odeie, minha filha, a injustiça e os injustos, odeie a dor que os homens provocam uns nos outros, rebele-se contra toda injustiça que presenciar ao seu lado. Não importa que você sofra um pouco por ela, com o tempo você se agigantará e se regozijará com orgulho do seu próprio valor pessoal, um orgulho são, doce e humano.

Minha filha, não pude te dar toda a ternura que minha vida havia acumulado para te alimentar e me deleitar. Tenho atrasado um sem fim de carícias que só você, filha minha, poderia despertar e deveria receber. Guardo-as em mim. De pronto, algum dia poderão florescer em suas mãos ou nas mãos de seus filhos.

Que nunca existam lágrimas em seus olhos; quando estiver triste, busque-me no sol, nas estrelas, no ar, em tudo que há de belo na vida. Não pude te acompanhar em vida, mas te dei a vida e não me arrependerei jamais. A ti compete fazê-la luminosa, trabalhe e jogue; jogue e trabalhe e será feliz.

Espero, meu amor, que sua vida se agigante com seus próprios desafios e que seja o que o destino traçou para você. Convoque para sua alma e seu corpo o amor do homem ou dos homens que te serão entregues pela vida. Seja generosa no amor, não conte com o tempo, nem se reserve nunca para o futuro com as coisas do amor. Desapegue-se sempre que amar. Ame com todo o amor da vida quando ele te assaltar. Seja apaixonada. Faça de cada época de sua vida uma lenda.

Minha filha, deixarei dormir todas as minhas angústias no dia em que pudermos nos sentar em um sítio qualquer e rirmos da sorte desta vida. Seja feliz, meu amor.

Seu papai e amigo pela vida,

Carlos

(Tradução: Raisa Pina)

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