Bienal estranha

♫ Cícero | Tempo de Pipa

Artigo meu publicado no Correio Braziliense na última segunda-feira (5/12).

“Achei meio estranha” tem sido a resposta mais frequente que ouço quando pergunto a alguém sua opinião sobre esta Bienal de São Paulo, seguida imediatamente de um “Você não concorda?” Não consigo responder de imediato porque entendo bem o que a outra pessoa quer dizer apesar de termos ideias diferentes sobre o “estranho”. Sim, esta Bienal “está meio estranha” porque o mundo hoje está “meio estranho”, daí a genialidade desta edição. Desde a última edição da Bienal, muita água rolou por debaixo da ponte: uma água cheia de lama da Samarco, para ser mais exata, água com refugiados mortos, água impiedosa, contaminada, venenosa, assassina; água que, ao contrário de dar vida, tira com crueldade.

De 2014 para cá, foram muitas as profecias de fim de mundo divulgadas que, em princípio, pareceram balelas, mas que agora, depois de políticos extremistas eleitos, outros tomando o poder, direitos humanos sendo sacrificados, tragédias ambientais, crises econômicas, pessoas esquecidas em alto-mar e diversos outros dramas, começo a pensar se o mundo de fato acabou e se estamos vivendo o apocalipse real. Vivemos em incertezas. Num mundo em que as áreas exatas e biológicas parecem não encontrar mais soluções, só a ciência dos afetos pode nos dar alguma lucidez de onde estamos e para onde vamos, e quem sabe criar uma saída alternativa para tudo isso.

As obras desta Bienal apresentam primeiramente uma forte crítica social sobre temas desastrosos, como é o caso dos azulejos de catástrofes ambientais da dinamarquesa Rikke Luther. Mas o que mais precioso desta edição é a carga potente de reivindicação de direitos humanos em um movimento muito natural: quanto mais se avança o conservadorismo, mais se fortalece a resistência. São muitos os artistas participantes que trazem a questão da colonização de negros e indígenas, bem como do preconceito e da violência de gênero. Artistas mulheres são maioria entre os nomes escalados para esta edição, algo ainda raro de se ver nos museus e galerias de todo o mundo. A representatividade desses grupos é de importância inquestionável e ultrapassa a mera posição de objetos passivos observados para seres produtores conscientes.

Na lista de participantes, por exemplo, está o pernambucano Vídeo nas Aldeias, um projeto educativo de mobilização coletiva e formação de cineastas indígenas que lançam olhar sobre si mesmos e seu universo. Está na lista também o gaúcho radicado em São Paulo Luiz Roque, que traz a questão transgênera para seus vídeos que mais parecem cinema de autor. A portuguesa Grada Kilomba expõe a cultura angolana e são-tomense de suas ancestrais, explorando não só temas raciais, mas também religiosos, de gênero e de classe. Na entrada de sua sala, os visitantes são recebidos com a foto de uma escravizada amordaçada, uma vela acesa e oferendas: transposição de um ritual diário que sua avó fazia em homenagem à antepassada que teve sua liberdade arrancada e sua dignidade rasgada, uma santa escravizada.

De Brasília, a genial Bárbara Wagner optou por mostrar por meio de fotografias a “elitização” das classes mais baixas, se é que posso chamar assim. O mundo rico de MCs se revela ao público burguês da Bienal: negros com cabelos descoloridos, correntes de ouro, carros importados, festas na piscina, mistura de estampas e excesso de decotes. As cenas podem incomodar principalmente quando se percebe que o verdadeiro desconforto vem de uma questão de classes. Quando a filha da empregada compra um carro melhor que o da patroa e ganha rios de dinheiro vendendo funk, a Casa Grande desespera.

Tudo isso pode soar “estranho” ao visitante acostumado com narrativas sociais hegemônicas, que possuem raízes tão profundas que às vezes se tornam difíceis de superar. O exercício de tolerância, de contato, de expansão dos horizontes do pensamento é diário e o melhor meio para isso é a arte. Se a 32ª Bienal parece “estranha” isso é bom; se ela incomoda, isso é bom. Em uma sociedade que aplaude governos ilegítimos e reivindica uma educação mecânica alienada, bem como o silenciamento de direitos humanos, o “estranho” se faz cada vez mais necessário.

Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes visuais

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