Londres desconhecida parte 2: bares de blues e jazz

Would you like some blues, honey? Aquele blues que parece tocar a alma e chacoalhar o coração, que chora a tristeza só para esgotá-la, pra fazer a lágrima cansar de si mesma e dar lugar pra festa outra vez. Blues é sofrimento constante, mas aquele sofrimento cheio de paixão, que dói com beleza e tudo o que você quer é ficar no canto com seu copo de uísque, dancing your troubles away. Sinto o blues como um dos estilos mais carnais que existem, carregados de sensações à flor da pele, que dói, mas cura; que derruba, mas excita; que te faz querer arrancar a roupa de desespero e se entregar sem pudores nas mãos de alguém que te dê amor. Ah, blues… Sempre quero mais.
No Soho, o Ain’t nothing but blues bar (20 Kingly Street) é conhecido pelos bons shows diários. Tente chegar cedo, por volta as 18h, para conseguir entrar (a fila de espera depois pode demorar). Além da música boa, você pode ter sorte e, como eu, ver apresentação de uma banda liderada por uma senhora idosa de chanel, blusa estilosa, jeans e um baixo de arrasar. Coisas que só Londres faz por você ❤ Se tiver disposição e força de vontade de se deslocar muitos quilômetros, todas as sextas-feiras a partir das 20h30 rola show em uma associação de blues no norte do norte do norte da cidade, a St. Harmonica’s Blues Club (6 Cannon Hill). É longe, mas a programação é intensa e a entrada é gratuita 🙂
Para quem também gosta de jazz e soul, recomendo muito o Troy bar (10 Hoxton Street). Nesse inferninho do leste de Londres, as terças são reservadas para soul e as quartas, para jazz. As sextas têm jam sessions e os outros dias também têm programações especiais. Então dê uma olhada no site para se programar melhor. Quem sabe você não acaba indo a semana toda 🙂 Além dele, o The Blues Kitchen (111 Camden High Street), no norte, também oferece uma agenda para os amantes da boa música (apesar de eu preferir o Troy). Me conte depois o que achou 😉 Para finalizar esse post musical, minha rainha diva querida. Ah, feliz Páscoa!

Londres desconhecida parte 1: tesourinhos do norte

♫ Madness | Our house

Já ficou comum amigos meus, quando estão de viagem marcada para Londres, me pedirem dicas que fujam dos passeios batidos turistões da cidade. Para além de Big Ben e London Eye, há muita coisa legal para se fazer (aliás, sinceramente, a parte boa da capital inglesa passa longe dos monumentos famosos). Visitantes de passagem costumam concentrar suas atenções no centro e no sul da cidade, vendo pontes, prédios, palácios, musicais careiros. Mas o lado mais legal, na minha opinião, são os pubs locais, as baladas da periferia, os parques desconhecidos… Se você é do tipo de gosta de fugir dos guias clichês e se aventurar por aquele bairro que ninguém ouviu falar, você é dos meus. Então cola em mim que é sucesso 😉

Pensei em uma série sobre os lugares desconhecidos de Londres e vou postando aos poucos, começando pela minha região do coração: o norte. Ele costuma ser mais reservado aos londrinos de verdade, com quase nenhuma atração turística, mais residencial, mas com lugares escondidos bem legais para se visitar, frequentados quase sempre por moradores da região (londrinos roots). Amy Winehouse morou aqui, um dos irmãos Gallagher também (não sei a diferença entre eles, não me julguem), Kate Moss, Terry Jones (do Monty Python), Bryan Cranston (o Heisenberg de Breaking Bad), a banda The Kinks já gravou clipes por aqui e a Madness dedicou todo um álbum para a região, o NW5, código postal das redondezas. Para além de um lugar frequentado por nativos, roqueiros e celebs doidonas, o norte tem uma graça toda especial, que vai desde bares animados a cemitério marxista. Se ficou animado, pega o papel, a caneta, uma tesoura sem ponta e anota tudo que você passa de ano. Se liga na lista 🙂
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Camden Town: ok, eu sei que não tem nada de desconhecido em Camden… É a parte mais turista do norte e provavelmente já está na sua lista de coisas a fazer na cidade. Mas mesmo batido, é um batido diferente, mais underground… Não é em qualquer lugar que você vê senhoras punks de cabelo verde e tatuagem na cara ou uma loja que vende roupas feitas só com a fibra da maconha. O lugar é bombante, mas de um jeito que só o norte sabe ser… Quase todas as fotos com a Amy chapada caindo pelas ruas foram flagradas aqui. À noite, as coisas funcionam até mais tarde, os pubs ficam lotados, as casas noturnas animadas, as ruas movimentadas… e ainda tem o canal pra quem tá no erro e busca salvação. Além de alegria, você acha muitas lojas de discos, muitas lojas de quinquilharias baratas (melhor lugar para souvenir), muita comida de rua gostosa e barata. Vá para Camden Lock. Depois me conte se foi feliz por lá 😉
Regent’s Canal: citei ele antes, mas ele merece um tópico à parte. É tão lindo! Parece uma partezinha de Amsterdã no meio de Londres… seja pelos barcos feitos de moradia, seja pela marola, seja pelo ar libertário. Descendo em Camden, você pode andar até King’s Cross de um lado ou até Regent’s Park do outro. Vão rolar altos túneis com graffiti maneiros. Se tiver no verão, vai ser uma festa só! Gringos despirocam no verão, rsrs. E indo até King’s Cross, você vai sair numa parte bem legal também, Granary Square, cheio de bares, instalações luminosas e, se tiver sorte, eventos gratuitos nas margens do canal. É muito amor.
Tapping the Admiral (77 Castle Road): esse pub fica cercado só de casas. À caminho, pode se ter a ideia de que vai ser desanimado, mas confie. Dependendo do horário, pode ser difícil achar lugar para sentar, mas dê pinta de inglês nativo e tome sua pint em pé mesmo, ouvindo clássicos dos anos 80. Tem um jardim bem charmosinho para os fumantes, com luzesinhas bonitas e aquecedor (faz toda a diferença). No bar há uma placa que resume o astral do lugar: “Crianças desacompanhadas serão vendidas como escravas” hahaha E provavelmente você vai ter que disputar as poucas cadeiras vazias com o gato preto que se acha o dono do espaço (talvez ele seja mesmo).
Southampton Arms (139 Highgate Road): e falando em pubs legais, esse é o meu preferido de todos. E não é só porque ele fica bem em frente à minha casa e é só atravessar a rua, o que facilita a volta quando estou trocando os pés, rsrs. Esse lugar só serve rótulos locais independentes e fazem uma rotatividade para que sempre haja novidade na casa. Você pode inclusive sugerir algum rótulo que queira. Nas terças e quartas rola “piano night” a partir das 20h. Quinta é dia de quiz, costume comum de bares bem londrinos. O jardim de fumantes deles é bem lindo também e, se a fome bater, sugiro um hambúrguer ou minha paixão: pork pie. Delícia demais. O que faz com que ele seja ainda mais especial é o preço, mais barato que a média em geral. O único detalhe é que não aceitam cartão.
The Pinapple (51 Leverton Street): outro pub que tem meu coração, mas por outro motivo: a cozinha. Eles têm um cardápio de comida tailandesa que olha… É um amor meio masoquista… A pimenta forte não tem dó. Cada garfada é uma paixão e uma dor simultâneas hahaha A decoração também é muito linda.
The Queen of Sheba (12 Fortess Road): já comeu comida etíope? É sensacional por dois motivos: primeiro pelo óbvio, o gosto; segundo pelo ritual de ser uma comida compartilhada. Você pede porções aleatórias, que podem ser, por exemplo, lentilhas, vegetais ao curry e carne de carneiro. A atendente traz uma travessa linda, bordada e colorida, forrada com um pão fino bem azedo. As porções são servidas em cima do pão e todo mundo divide o mesmo prato, comendo com as mãos. Muito lindo e delicioso. Não deixe de experimentar uma cerveja etíope 🙂
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Gulshaan (343 Kentish Town Road): sou gulosa… se estiver na vibe comilança, tente esse indiano bem em frente à estação de Kentish Town. Tudo é delicioso e o preço é pagável.
Bistro Laz (1 Highgate West Hill): ainda em restaurantes, esse lugar é um amor. Pequenininho, com uma decoração toda cheia de coisinhas, barcos, vinhos, luzes, o restaurante tem um cardápio incrível que serve desde desjejum a jantar. Eu, particularmente, adoro ir lá de manhã e comer aquele english breakfast firmeza ou ovos beneditinos feitos com perfeição. Mas as opções são várias: tem café da manhã turco, mediterrâneo, florentino ou simplesmente uma torrada com chá.
E.mono (287 Kentish Town Rd): apenas o melhor kebab ever!
O2 Forum Kentish Town (9-17 Highgate Road): essa casa de shows tem muita coisa legal na agenda, desde apresentação das drag queens de Ru Paul’s Drag Race a banda de Noel Gallagher ou grupos metaleiros. Vale a pena conferir a programação no site e tentar comprar alguma coisa com antecedência (os ingressos sempre esgotam rapidamente).
Hampstead Heath: parque enorme onde ingleses levam suas crianças ou seus cachorros ou todos juntos para um passeio de domingo. A vista é linda… Por ser numa região alta, dá para ver os prédios grandes mais recentes e a London Eye no horizonte. Acho esse parque mais legal do que Hyde Park, turistão demais. Esse é mais local, mais cheio de árvores e bosques. Se estiver na animação, ande até o meio dele, procurando por Kenwood House. É uma mansão antiga que hoje funciona como museu e tem uma cafeteria sensacional. Um café-da-manhã de domingo por lá é só beleza.
Highgate Cemetery: o maior morador do norte de Londres vive a alguns palmos debaixo da terra: Karl Marx. Divo como sempre, Marx não poderia ter um cemitério melhor. Eu gosto de visitar cemitérios e confesso que esse talvez seja um dos mais lindos que já conheci (se você tem um lado forte hippie como eu, vai concordar). O lugar mais parece um bosque. Você anda por entre as árvores altas comendo blackberries que crescem feito praga pelos caminhos. Além de Marx, há várias outras personalidades importantes, especialmente escritores e pensadores. Mas, depois de Marx, para mim, a segunda pessoa mais importante enterrada lá é Lucia Fleury Nogueira: born in Goiânia, died in London. Quase caí para trás quando vi, ao lado da lápide do Eric Hobsbawn, uma conterrânea minha. É muita fineza!
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Quando vier para Londres, vá para o norte! Descubra outros lugares por conta própria também. Lembre-se que o melhor de Londres é se perder em Londres, rs. Mas olhe sempre para os dois lados antes de atravessar a rua. Com essa mão inglesa ridícula (para quê, não é mesmo?) nunca se sabe se está olhando para o lado certo ou não, então, na dúvida, olhe para os dois! Boa caminhada 🙂

De quando Paris roubou meu coração

♫ Madelaine Peyroux | Weary Blues

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Quem leu meu primeiro texto sobre Paris sabe que minha experiência não foi muito boa. Os parisienses sabem ser grossos e arrogantes num nível exagerado. Quando pensei em voltar, me adiantei e entrei num curso de francês para, no mínimo, conseguir xingar quem me maltratasse. Deu certo! Saber um mínimo da língua pareceu amaciar os corações de gelo daquele povo que se acha muito superior que os outros (cá entre nós, se eu tivesse uma Revolução Francesa na minha história, acho que seria bem metida também…). Minha segunda vez em Paris foi bem mais gostosa: me deixei levar sem tensões pelo momento e acho que me apaixonei.

A parte boa também foi de não ter a obrigação de visitar os pontos turísticos batidos. O Louvre já ficou pra trás, a Torre Eiffel encanta mais de longe do que de perto, não há mais necessidade de perder um dia inteiro em filas de museus e você pode só fazer o que Paris te oferece de melhor: flanar de café em café, entrar nas livrarias que aparecem pelo caminho, tomar uma taça de vinho vendo o movimento da rua… Como eu disse na coluna d’O Beijo, foi justamente por esse ambiente que atiça a vontade de errância que a cidade atraiu artistas e poetas de todos os cantos do mundo da virada do século XIX para o XX. Até hoje, ela tem esse poder. O melhor de Paris é se perder em Paris 😉

Para quem chega de países de língua inglesa ou alemã pode estranhar a confusão latina da capital francesa. Ela me estranhou da outra vez… Achei tudo caótico, tudo meio sujo, o metrô fedendo xixi… Mas dessa vez, não sei se já estava muito saudosa do Brasil depois de quase dois meses longe de casa, achei a bagunça uma alegria. Somos latinos, com toda dor e felicidade que isso inclui. Falamos alto, não temos paciência, xingamos no trânsito, fumamos muito, cuspimos no chão. Isso porque gostamos de nos sentir à vontade mesmo em locais públicos, e o senso de civilidade fica atrás do nosso próprio conforto. “Eu sou assim e quero fazer isso, e se você não gostou, vá à merda”. É mais ou menos isso o nosso pensamento, rs. O que alguns vêem como falta de educação, eu vejo hoje como um exercício de liberdade (claro que há limites… o importante sempre é não esbarrar na liberdade do outro. Se isso não acontece, tá tudo bem e vá à merda com seu julgamento, rs).

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A rede de transporte público da cidade é muito eficiente. Como em Milão, recomendo comprar dez tickets de uma vez porque sai mais barato. E o bilhete pode ser usado tanto no metrô quando no ônibus. Em Milão, entretanto, você pode usar o mesmo passe diversas vezes num intervalo de 90 minutos. Em Paris isso não acontece. Pra cada viagem, um ticket. Há também a opção de comprar o bilhete semanal, que sai em conta, mas ele, por algum motivo muito estúpido, vale apenas de segunda a domingo, necessariamente nessa ordem. Se você chega na cidade na quarta, por exemplo, não pode comprar para usar até a terça seguinte, porque expira no domingo de qualquer forma. Como já disse da outra vez também, a capital francesa conta com um sistema de empréstimo de bicicletas muito eficiente, o Vélib. Há pontos em cada esquina e você faz o cadastro ali mesmo. É muito barato, além de uma forma original, sustentável e muito charmosa de conhecer a cidade 🙂

Paris foi construída em distritos espirais. O mais central é o 1º arrondissement e os outros vão se afastando gradativamente e sucessivamente. Geralmente as dicas sobre hospedagem falam que o importante é ficar até o 10º arrondissement, o que é uma besteira. O importante é ficar relativamente perto de uma estação de metrô. É incrível o quanto é possível economizar com hospedagem entre o 10º e o 13º, por exemplo, sem aumentar a dificuldade de se chegar ao centro. Tenho um amigo que mora no 20º e para ele é muito tranquilo se locomover diariamente na cidade. Além disso, conhecer bairros mais afastados e menos turísticos é sempre mais interessante do que ficar no olho do furacão. Minha opinião.

Agora, vamos aos passeios legais?

❤ Primeira dica: se perca sempre. Quando não souber para onde está indo, sinta-se feliz e aproveite a paisagem. Quer apostar que vai encontrar algo incrível e inesperado pelo caminho?

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❤ Quartier Latin: ai, ai… só de pensar já dá uma alegria de viver. Bairro cheio de cafés, de universitários, da Sorbonne, da minha livraria preferida do mundo: J. Vrin (6 Place de la Sorbonne), especializada em filosofia, cheia de títulos que você estava procurando mas que não achava em lugar nenhum. Cuidado para não estourar o cartão de crédito. Não que tenha acontecido. Só avisando mesmo. Para quem gosta de cinema, uma das melhores ruas da sétima arte também está ali: Rue Champollion. E se você sair na estação Cluny-La Sorbonne, vai dar de frente a uma feirinha de quitutes gostosos e outras bugingangas.

❤ Shakespeare and Co. (37 Rue de la Bûcherie): falando em livrarias do coração, essa aí tem um charme à parte. Especializada em literatura inglesa, na década de 1920, era pondo de encontro entre escritores finos, como Hemingway, Joyce, Fitzgerald… Alguns poetas chegaram a dormir lá e ainda hoje qualquer pessoa pode pedir um leito de graça em troca de algumas horas de trabalho na livraria. O lugar, em frente ao Sena, mais parece um labirinto antigo, com paredes de madeira, escadas antigas, estantes empoeiradas. No andar de cima, algumas camas entre os livros, um piano disponível para quem quiser tocar. Dá vontade de morar ali. Livraria muito querida.

❤ Centre George Pompidou: o único museu que eu revisitei e revisitaria mil vezes. Especializado em arte moderna e contemporânea, com um acervo mais que incrível que inclui todas as vanguardas e algumas neovanguardas, além de trabalhos bastante curiosos, o Pompidou ainda possui a obra mais linda da cidade: a vista de Paris. A Torre ao longe, a Sacre Coeur no horizonte, os milhares de telhados da capital soltando fumacinhas, o céu arrebatador. A lojinha também é demais, com objetos e livros ótimos. Mas cuidado com o limite do cartão de crédito (não custa repetir).

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❤ Jazz: a Rue des Lombards tem vários bares e cafés de jazz com shows diários. Minha sugestão é a jam session do Baiser Salé que rola todo domingo e segunda-feira (às vezes às 19h, às vezes às 21h… eles avisam na porta). Minha experiência mais francesa foi ouvir jazz num salão pequeno e abafado. Muito amor. Quando for voltar pra casa, antes de correr para a estação de metrô (Châtelet está logo ali), dê só uma olhadinha para a Torre da ponte au Change. Veja o céu escuro, as luzes piscando, a água correndo, os carros passando, o ar frio batendo no rosto…

❤ Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris: ninguém fala desse museu e é muito lindão, a começar pelo prédio grandioso e pela vista deslumbrante bem de frente para o Sena e a Torre. Além do mais, é gratuito e tem obras super interessantes. Enquanto nos outros museus você espera mais de hora na fila, nesse você entra direto.

❤ Galerie Vivienne: no século XIX, Paris passou por um período de intensas mudança econômicas e social. O avanço da indústria e da burguesia criou um apelo pela novidade e pelo luxo e um dos resultados disso foi o surgimento das galerias de comércio na cidade, com longos corredores cintilantes e elegantes, vitrines atraentes e um charme que até hoje é preservado, apesar de termos avançado quase dois séculos desse momento. A Galerie Vivienne é uma delas e era um dos lugares favoritos do Julio Cortázar. Fui lá por conta dessa informação e até hoje suspiro pensando nela. Lá dentro, escondida, há um livraria de livros antigos e raros, onde passei alguns momentos namorando as estantes. Na saída, sentei num café e fiquei observando o movimento. Notei um pequeno portão, discreto, quase despercebido, por onde pessoas entravam e não voltavam mais. Resolvi seguí-las e, para minha surpresa, depois de um corredor estreito, caí no meio dos jardins do Palais Royal. No coração caótico de Paris, um refúgio arborizado, com fontes de água e barulho só de pássaros. Pessoas lendo, namorando, observando a suspensão do tempo. Foi ali que percebi que estava apaixonada. E é amor eterno, amor verdadeiro.

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❤ Domingo no parque: pegue o metrô e saia na République. É muito curioso o sentimento que a praça consegue suscitar… O monumento cheio de interferências, seja de críticas ao capitalismo, à religião, à xenofobia, à liberdade teorizada mas não praticada, seja de apoio às vitimas dos atentados (Charlie e Bataclan). Em meio a tudo isso, skatistas fazendo manobras, pessoas aguardando alguém, a vida seguindo alheia a todo aquele vômito ideológico. Depois desse momento de reflexão, desça pro canal St. Martin (se estiver no verão, vai ser ainda mais lindo). Como já dizia meu querido Guimarães Rosa, perto de muita água, tudo é feliz. Uma torta de maçã no Chez Prune (36 Rue Beaurepaire) combina muito bem.

❤ Tem algum conhecido que mora na cidade ou conhece alguém que conhece outra pessoa que mora lá? Perca a vergonha e tente fazer contatos. Se tiver sorte, vai acabar numa festa dançando Jorge Ben até às 5h da manhã, em um apartamento no centro de Paris, com uma vista deslumbrante e pessoas legais 🙂

❤ Palavrões para o caso de algum parisiense te encher o saco:

  • Fils de pute! (“Fís de pute”, para o caso de um homem)
  • Fille de pute! (“Fíe de pute”, para o caso de uma mulher)
  • Connard! (“Conár”)
  • À merde! (Fala do jeito que se lê mesmo)

Ê, Paris… já estou sonhando com a volta, minha querida.

Visitando “a casa” de Hendrix em Londres

♫ Jimi Hendrix | Foxy lady

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Apesar de a casa do Jimi Hendrix em Londres beirar o que poderíamos chamar de armadilha de turista, ela reserva alguns fatos interessantes que me deixaram feliz de ter visitado o lugar. O endereço é 25 Brooke Street, em Mayfair, um dos bairros mais ricos da cidade. Você pode chegar lá saindo nas estações de Bond Street ou Marble Arch. Quando cheguei, avistei uma pequena fila em frente a uma porta singela e discreta. A placa também singela logo me deu a primeira curiosidade sobre o lugar: Handel & Hendrix in London. Achei legal que a casa que, no fim da década de 60, foi casa de um dos roqueiros mais doidões da história, também acolheu, duzentos anos antes, um dos compositores barrocos mais famosos do mundo.
Handel morou nos dois primeiros andares do prédio e Hendrix, no último. Aparentemente é possível visitar só um dos dois pelo valor de £ 7, mas quando cheguei lá, por algum motivo que não entendi qual era, só estavam vendendo o combo com as duas visitações por £ 10 (o que, nas circunstâncias atuais de câmbio bizarro, significa quase R$ 70. Mas a gente não converte pra não morrer de infarto antes da diversão).
Subindo a estreita escada de madeira, se ouve o rangido de um chão que presenciou muita história ali. Handel morava bem, em dois andares amplos, com largas janelas e espaço suficiente para comportar seus vários pianos e cravos. Mas para além dos instrumentos antigos bonitos, não há mais nada tão interessante ali. Encheram as paredes com informações sobre a vida de Handel e colocaram alguns players com composições suas. Mas é tudo meio perdido num grande espaço vazio com chão rangedor, com exceção de um pequeno quarto onde quiseram fazer algo mais interativo, colocando fantasias de Handel e Hendrix para os visitantes tirarem fotos. Meio sem graça, achei… Só achei curiosa a dificuldade de distinguir o que deveria ser fantasia de um ou de outro, porque Hendrix às vezes se vestia como um lorde do século XVIII, rs.
Estava mesmo ansiosa para ver o apartamento de um dos meus roqueiros preferidos e subi para o último andar. Próxima curiosidade interessante, mas broxante: ele morou ali só de 68 a 69, em um ano de intensa turnê pela Europa e Estados Unidos também. Ou seja… ele quase não ficou ali e penso que um ano de moradia é muito pouco para se declarar “a casa” de alguém. Tudo bem que é muito massa pensar que ele esteve ali um tempo, dormiu ali, fez festas ali, mas, poxa, o cara era um doidão e provavelmente dormiu e festou em cada esquina de Londres. Não há nada de original no lugar… Eles conseguiram reproduzir o quarto do artista baseando-se em fotos que tinham, mas é uma reconstrução. A cama ali não é a dele. E a sala foi toda coberta com vídeos e fotos interessantes, mas que me incomodaram com a insistência em exaltar o lugar como um apartamento muito especial da vida dele.
Agora, terceira curiosidade: no fim da década de 60 (nem faz tanto tempo assim), Hendrix pagava um aluguel de £ 30 por semana, o que significa £ 120 por mês, em um dos bairros mais caros de Londres. Hoje um apartamento daquele deve cobrar, no mínimo, dez vezes mais (risos de choque). A lojinha do lugar também é bem fraquinha. Tem alguns discos de vinil que o Hendrix gostava de ouvir ali, muito Bob Dylan, alguns blues, jazz e, claro, The Jimi Hendrix Experience. Mas para além disso, nada demais. E aí vem a última curiosidade: Handel sofre bullying ali, coitado. Morou muito mais tempo no lugar, habitou dois andares, tem muito mais espaço e vários objetos originais dele ali, mas o rei mesmo do pedaço é Hendrix, o que pode ser comprovado pelo valor dos postais: enquanto os do estadunidense custam £ 1, os do germânico custam £ 0,60, quase metade, rs. Se Handel eu fosse, voltaria só para assombrar os visitantes que vão por conta de Hendrix. Pelo menos deixaria a visita mais legal do que é.

Da graça de Milão

♫ Wild Belle | Giving up on you (Ticklah Remix)

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Andando pelas ruas modernas milanesas, sentia falta do esplendor antigo que outras cidades italianas têm. “Milão não é Itália”, me disseram mais de uma vez e pude comprovar a teoria. Realmente, não tem o charme das ruínas, nem as cantininhas baratas onde se acha um prato de espaguete delicioso por quatro euros, não tem a latinidade descontraída do restante do país. À primeira vista, não houve amor da minha parte. Achei que seria um encontro fracassado com a cidade: não achei bonita, achei superficial com sua super-valorização do mundo fashion (realmente, todo mundo por lá parece trabalhar em alguma marca famosa), achei as pessoas frias e a comida ruim. Mas bastou um pouco de paciência da minha parte para começar a gostar do lugar, que é cheio de detalhes especiais, especialmente se você é do tipo de viajante rato de museu.
Pra começar, se você for ficar um número razoável de dias por lá, considere comprar 10 tickets de ônibus/metrô de uma vez, porque sai mais barato. O sistema de transporte é bem eficiente: uma passagem custa 1,50 euro, vale para todos os tipos de locomoção coletiva (inclusive os bondinhos que passam pelo centro) e você pode usar o mesmo ticket diversas vezes por um período de 90 minutos. Então, se você se hospedar mais longe do centro, você pode pegar um ônibus até a estação de metrô mais próxima e depois pegar os bondinhos do miolo histórico pagando apenas 1,50. Achei demais. O centro histórico, entretanto, é bastante pequeno. Dá pra fazer tudo à pé, deixando a confusão de ruas cuverlíneas guiar seu olhar curioso. Porque o melhor de Milão é se perder por Milão, rsrs.
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Chegando pelas estações de trem Porta Garibaldi ou Milano Centrale, dá para chegar a qualquer parte da cidade com esse sistema de passe único. Há metrô nas duas. Chegando pelo aeroporto de Malpensa, você pode pegar o trem que leva até o centro e, de lá, pegar o metrô. Custa 12 euros. Sobre hospedagens, sempre recomendo o Air B&B. Para mim, difícil achar algo com melhor custo-benefício.
Agora, dicas boas que garimpei por lá:
❤ Museus – Poucas cidades me encantaram tanto pelos museus. Claro que Londres tem instituições incríveis, Paris, então, nem se fale… Madrid também é muito amor, mas os museus de Milão tem uma beleza muito singela e, ao mesmo tempo, avassaladora. Isso porque a maioria deles funcionam em palácios antigos, com escadas labirínticas, janelas gigantes, vistas para parques, pé direito alto, paredes de pedras, colunas, varandas, plantas… É um lugar em que arte e arquitetura realmente se completam ali, lindo demais. Além disso, são mestres italianos, né. Caravaggio ali, de boa, de frente para uma biblioteca centenária conservada dentro do museu. Visitei quatro e recomendo todos, sem ordem de preferência:
  • Pinacoteca Ambrosiana – onde tem esse Caravaggio na biblioteca centenária, Ticiano, Botticelli, Pinturicchio, Jan Brueghel, Tintoretto e por aí vai.
  • Museo del Novecento: mais moderno, focado nas vanguardas do início do século XX. Tem Picasso, Morandi, Matisse, Futuristas de montão, Braque, de Chirico e de Pisis. O prédio fica de frente para o Duomo e a vista é de suspirar.
  • Galeria d’Arte Moderna:   fica de frente para o Jardim Público Indro Montanelli, outro passeio sensacional. A galeria conta principalmente com coleções particulares que foram doadas a ela e que possuem obras super interessantes. Você vai encontrar obras de artistas italianos do século XX não tão conhecidos fora da Itália, o que faz do lugar ainda mais especial.
  • Pinacoteca di Brera: ah, como é linda… O prédio é arrebatador, com suas escadas de pedra e varandas arejadas. No lugar também funciona a Academia di Brera, com cursos de artes, inclusive cursos de restauração. Pelo museu, é possível ver obras sendo restauradas e alunos atentos anotando tudo.
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❤ Brera – e falando da Pinacoteca, aproveite para conhecer o bairro que é um charme à parte. A Via Fiori Chiari, logo acima do museu, é uma viela de paralelepídos cheia de restaurantes lindos e sorveteria gostosa. Mesmo se tiver no frio do inverno, não deixe de tomar uma casquinha da sorveteria natural artesanal Amorino. O Orto Botanico di Brera é um refúgio do cinza da cidade. O jardim usado para estudos universitários é aberto para visitação gratuita e é um descanso para a mente. Se jogar no meio do verde é sempre bom 🙂
❤ Centro histórico – a praça do Duomo é realmente incrível. Eu não gosto muito de esperar horas na fila para entrar em igrejas pagando uma taxa exagerada, mas se for a sua, acho que vale a pena. Aparentemente a vista é linda. Mas a vista é linda da frente da igreja também ahahaha. De lá, uma caminhada pela Galeria Vittorio Emanuele II é quase que obrigatória. Está ali do lado e é uma passagem única, com pé direito alto, afrescos no teto, restaurantes e lojas finos… Tudo meio caro… Mas achei um restaurantezinho mais em conta ali do lado: Le Spighe Cafè, na Via Giuseppe Verdi. Comi um carbonara por 6 euros.
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❤ Café-da-manhã no Pavè (Via Felice Casati) – confeitaria/restaurante decorado como se fosse uma casa de vó, com sofás, mesas coletivas e muitos quitutes. Eles servem panetone o ano inteiro. Acho que não preciso dar mais motivos para ir, rsrs.
❤ Navigli – estava evitando ir a essa região que ouvi falar que era a melhor, às margens do canal, cheia de bares e restaurantes. Achei que seria turística demais e dei de ombros. Mas no meu último dia resolvi dar uma chance e me arrependi de não ter ido antes. É realmente uma das melhores regiões. O canal é um charme, os bares são acessíveis e os restaurantes são sensacionais sem te cobrar um rim por isso. Na minha última noite, resolvi me levar para um jantar romântico comigo mesma e fui ao Bela Riva. Pedi uma massa com camarões que pareciam lagostas de tão grandes e alcachofra. Foi uma das melhores coisas que já comi na vida, rs. Para chegar lá, saia na estação Porta Genova (linha verde), caminhe pela Via Vigevano até a Corsico, que vai morrer no canal.
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Depois de tudo isso, impossível não mudar de ideia com relação à primeira impressão desapontada que a cidade causou. Milão pode ser bem legal 🙂

músicos de rua ou minha saudade do velho continente

♫ Medeski, Martin & Wood | Where’s the music?

Escrever sobre a Suíça no post passado me bateu uma saudade imensa da Europa e principalmente do mochilão que fiz em 2012 (ou seria simplesmente saudade da mamãe? Ainda bem que ela chega dia 22 agora!). Fiquei lembrando e relembrando de algumas cenas, alguns momentos bobos que na hora nem foram marcantes, mas que continuam frescos na memória – e acho que nunca vão embora daqui. Lembrei das comidas, dos cheiros, do clima, dos sotaques, dos prédios velhos e alguns tão novos e modernos. Ah, que saudade. Por conta dela, fiquei vasculhando fotos da época no meu arquivo e achei a pasta das fotos do meu TCC. O que tem a ver? Já explico!

Era eu uma universitária feliz e tranquila que esperava se formar no tempo normal com sua turma, mas a tranquilidade excessiva me fez atrasar um semestre no fim das contas, rs. E só me dei conta de que iria atrasar bem depois de ter marcado o tão sonhado mochilão pelo velho continente, que seria em maio do ano seguinte, justamente a época em que eu deveria finalizar meu Trabalho de Conclusão de Curso. Sentei com meu orientador e expliquei a situação. Disse que não contava com o atraso e que tinha essa viagem marcada e que eu teria que descobrir uma forma de conciliar as duas coisas. Ele, o professor mais compreensivo e amigo de todos (oi, Sálvio!), sugeriu que eu fizesse um livro-reportagem fotográfico e aproveitasse a viagem para produzir as imagens que iriam no trabalho. Melhor sugestão do mundo. Caiu como uma luva.

A partir disso, pensei em um tema para fotografar e, como eu já sabia da quantidade de músicos de rua que existiam pelo menos em Londres, achei que poderia pegar esse gancho e fazer meu TCC. Assim nasceu o livro Músicas para ver ou Fotografias sonoras, com registros de tudo relacionado à música que flagrei em Londres, Paris, Suíça e Itália: músicos, cartazes, lojas de instrumentos, brinquedos musicais, obras de arte, shows… Tudo foi clicado e depois dividido em três capítulos: As ruas; Os palcos; Vitrines, paredes e afins. As fotos não são muito elaboradas (foi minha primeira aventura como fotógrafa; mal sabia eu que viraria uma paixão futura), mas eu gosto mesmo assim. Para este post, mostro as imagens do primeiro capítulo, exclusivo de músicos de rua. De novo: ah, que saudade.

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suíça: viagem panorâmica

♫ João Gilberto | Pra quê discutir com madame?

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A Suíça tem fama de ser elitizada, mas isso é uma grande bobagem. É possível ser feliz no país mesmo com pouca grana. Graças ao território pouco extenso e à malha ferroviária sensacional, dá para conhecer praticamente a Suíça inteira em poucos dias. A paisagem é o ponto alto dos passeios, então se você quer uma viagem mais tranquila, mais contemplativa e menos bombada, não há nada melhor que esse pequeno país, rei dos queijos e chocolates (precisa de mais motivo para querer ir para lá? Rs.)

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Existem três meios de transporte que facilitam muito o deslocamento: o primeiro é carro. Cruza-se o país de norte a sul e de leste a oeste em apenas 2 horas para cada trajeto. Se você conhecer alguém que mora lá, fica ainda melhor. Assim dá para esquematizar passeios pelos vijarejos da região (Suíça é cheia deles. Cidades “grandes” são pouquíssimas. Consigo pensar só em quatro, na verdade – estou errada, Stephan? rs.): Zurique, a capital Berna, Basel e Luzern – cada uma mais linda que a outra. Sabe aquela paisagem típica de contos de fadas? Uma mata, uma montanha atrás com o pico de neve, um lago cristalino, vaquinhas com sino no pescoço… Essa é a Suíça. Consegue ser “rural” e cosmopolita ao mesmo tempo.Se não tem nenhum amigo morador e não tem interesse em alugar um carro, os ônibus funcionam muito bem. Geralmente saem da porta da estação de trem principal e vão para o interior, parando nos vilarejos. O valor das passagens é bem em conta (fora que o Franco Suíço é mais barato que euro!).

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Para quem quer se aventurar pelos trens, recomendo comprar os pacotes do Europass. A Suíça tem vários planos especiais: para trechos totalmente panorâmicos, pacotes combinados com barcos, pacotes simples etc. O Europass é legal porque são contabilizados os dias de viagem e não os trechos viajados. Assim você pode, em um mesmo dia, viajar para diversas cidadezinhas e pagar apenas um dia. Facilitou muito a nossa vida. Estávamos hopedados em Luzern, bem no centro do país, e íamos passar um dia em Zurique. Chegamos cedo, batemos perna, comemos muito, fomos para feira de antiguidades, fomos na loja da Apple (única loja das capitais européias que tinha o preço bem mais em conta do que no Brasil. Nas outras, era trocar seis por meia dúzia), andamos mais e nos cansamos da cidade. E ainda eram só 14 horas. Como o passe já tinha contabilizado um dia, corremos para a estação e vimos que logo mais sairia um trem para Berna – cidade que nem tínhamos planejado visitar. A viagem duraria pouco tempo e, quando vimos, estávamos descendo no centro da capital. Que surpresa boa foi visitar Berna. Achei a cidade mais linda da Suíça e planejei seriamente envelhecer ali. Berna é muito medieval, com várias lojas de subsolo e portas de madeira que abrem para o chão, como se fossem calabouços, rs. A cidade tem vários jardins, cafés ao ar livre, um parque com ursos (o nome da cidade vem do animal, não é fofo?) e, ao lado, uma cervejaria artesanal deliciosa (Altes Tramdepot, super indico).

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Passamos a tarde na cidade e voltamos para Luzern à noite, depois de comer raclete! O legal de Berna também é ver os órgãos administrativos do país, como o Parlamento e tal. Achei a capital muito mais legal que Zurique, mas a maior cidade do país também tem umas coisas bem legais, como o confeitaria Sprüngli, onde dizem que inventaram os macarrons. Os franceses roubaram a receita suíça, segundo eles. Verdade ou não, nessa confeitaria, tem tanto tipo de macarrons que a gente fica até meio tonta. E todos feitos no dia! O rio da cidade também é lindo e lembra um pouco Amsterdã. Mas ainda assim prefiro as cidadezinhas do interior.

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Luzern também é linda. Tem um museu de deixar qualquer capital do mundo com inveja. É incrível como uma cidade de 80 mil habitantes hospeda permanentemente obras de Kandinsky, Klee, Picasso, Miró… Nessas horas fico um pouco deprê, pensando que estamos longe de chegar no nível. Mas enfim. A realidade é diferente aqui. Visite o Rosengart Museum e dê uma olhada na programação do KKL, um dos centros culturais mais importantes da Europa. Também não deixe de visitar a muralha medieval que circunda a cidade, além da ponte coberta e o Löwendenkmal. Este último é a escultura de um leão chorando a morte de soldados suíços em guerras passadas. Acho tão bonito. A maioria dos monumentos europeus do tipo é uma coisa glorificando os soldados e agradecendo a morte deles em prol da pátria. Esse não, é um leão sofrendo. Lindo.

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Outra cidade que acho que vale uma parada, principalmente para quem vai de trem de Paris, é Basel. Localizada numa tríplice fronteira (Suíça, França e Alemanha), Basel tem um pouco dos três países e hospeda um dos festivais de música mais importantes do país, o Avo Sessions, que rola em outubro e novembro. Saímos de trem de Paris rumo a Luzern, mas tínhamos uma parada em Basel. Resolvemos descer e conhecer a cidade. Almoçamos na Marktplatz, praça principal, onde tem a prefeitura e rola uma feira cheia de quitutes e salsichas alemãs. Depois fomos descendo em direção ao rio Reno (um dos principais da Europa), como sempre, babando na paisagem. Depois do rolê, já estava na hora de voltar para a estação. Rapidinho, mas tão lindo.

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A Suíça é assim, pequena, mas acolhedora. Dá vontade de não voltar mais, de envelhecer ali, comendo queijo, vendo os cisnes no lago e assistindo shows de jazz quando a temporada chegar. Para jovens casais com orçamento limitado, recomendo ficar num quarto privativo do hostel Backpackers Luzern. Foi o hostel mais fino que já fiquei, com direito a quarto com sacada e vista para o lago. O banheiro é compartilhado, mas é Suíça. Tudo muito limpo e organizado. O preço foi um dos mais em conta que já paguei com hospedagem: não saiu 70 euros a diária para casal. Suíça é linda e vale muito a pena conhecer. Principalmente se ela já vai pintar no meio do caminho, como foi com a gente. Estávamos planejando ir da França para a Itália de trem, mas teríamos que fazer a escala no país. O destino às vezes coopera a favor 😉