Carta de Carlos Pizarro a sua filha (ou: Carta para nossas vidas)

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Carlos Pizarro foi um guerrilheiro colombiano, comandante do grupo M-19, responsável por assinar o acordo de paz com o governo e entregar as armas do movimento como prova de sua palavra. Depois do feito, candidatou-se à presidência da Colômbia, mas foi assassinado durante a campanha – um crime que até hoje, 26 anos depois de sua morte, não foi esclarecido. Sua filha Maria José Pizarro, que foi separada ainda pequena de seu pai pela perseguição política, ainda sofre com um luto que não veio: ainda sonha com ele, conversa com ele diariamente, imagina se encontrando com ele. Na tentativa de encerrar essa angústia, ela tem travado nos últimos anos uma luta pelo esclarecimento do crime, que sabe talvez ser algo impossível de alcançar. O trabalho de investigação inclui a reunião de diversos vídeos, fotos, dossiês e documentos mil, que são mostrados no documentário lançado no ano passado na Colômbia e que chega agora no Brasil no circuito dos festivais de cinema.

“Pizarro”, do diretor Simón Hernandéz, é emocionante do início ao fim, mostrando imagens dos acampamentos de guerrilha, das prisões, da anistia, da força popular que Pizarro tinha, além de depoimentos da família, especialmente de Maria José, que é a protagonista da produção. O filme acompanha sua luta pessoal intercalando com a luta político-social de seu pai. Um dos momentos mais tocantes é a leitura de uma carta que Pizarro enviou para Maria José quando ela tinha apenas cinco aninhos, uma carta para preencher a ausência dele em sua vida, por toda a vida, porque no fundo ele sabia que não se encontrariam mais.

A carta original em castelhano está aqui. Abaixo, está minha tradução. Já li mil vezes e lerei mais mil vezes. Ensinamentos de vida de um pai esquerdista; ensinamentos de vida para todas nós.
Minha filhinha,

Tenho em minha alma um montão de sorrisos e mariposas para você. Algum dia juntaremos os sóis que você desenha com os sóis que eu faço nascer e teremos para nós dois, para nós três e para todos, uns rostinhos felizes. As pessoas vão olhar para nós e vão desejar nossos sorrisos. Esse dia chegará; mas agora que temos que continuar distantes um do outro, lembre-se sempre de que não importa onde você esteja e o que faça, eu te amei antes de você nascer e hoje que te conheço, hoje que não é estranha aos meus olhos, a minhas mãos, aos meus sonhos, eu te amo ainda mais.

Neste tempo que estamos distantes, não me esqueça. Não deixe que eu morra em seu coração e em sua vida. Quando você estiver triste, quando se sentir infeliz em sua vida, pense em tudo o que você tem e nunca no que lhe falta; pense na quantidade de gente que te ama, as vovós, os tios, os primos e, acima de tudo, a mamãe, a Claudia e eu, que te amamos sem fronteiras. Pense que a felicidade está ao alcance de suas mãos, alegre-se com sua beleza e a cultive, e sobretudo, cuide de sua inteligência, cuide da beleza que está dentro de você, a beleza que só você pode fazer crescer conhecendo o mundo e os homens, lendo apaixonadamente e estudando, que seus olhos brilhem porque dentro de você o fogo se matém aceso e cálido. Seja sábia, meu amor. Ser sábio é conhecer em cada época tudo o que ela nos reserva, viver intensamente cada caminho e cada desvio, saber sempre que o conhecimento é uma árvore infinita onde sempre se escala; ser sábia, minha filhinha, é saber gozar das coisas pequenas da vida e saber estar sempre ao lado dos ideais justos. E seja boa, filha minha, que sua alma sempre esteja vestida de festa para receber o amor e para fazer brotar o amor. Nada resiste a uma alma que vai de festa pela vida. O riso provoca o riso. O amor chama o amor. Odeie, minha filha, a injustiça e os injustos, odeie a dor que os homens provocam uns nos outros, rebele-se contra toda injustiça que presenciar ao seu lado. Não importa que você sofra um pouco por ela, com o tempo você se agigantará e se regozijará com orgulho do seu próprio valor pessoal, um orgulho são, doce e humano.

Minha filha, não pude te dar toda a ternura que minha vida havia acumulado para te alimentar e me deleitar. Tenho atrasado um sem fim de carícias que só você, filha minha, poderia despertar e deveria receber. Guardo-as em mim. De pronto, algum dia poderão florescer em suas mãos ou nas mãos de seus filhos.

Que nunca existam lágrimas em seus olhos; quando estiver triste, busque-me no sol, nas estrelas, no ar, em tudo que há de belo na vida. Não pude te acompanhar em vida, mas te dei a vida e não me arrependerei jamais. A ti compete fazê-la luminosa, trabalhe e jogue; jogue e trabalhe e será feliz.

Espero, meu amor, que sua vida se agigante com seus próprios desafios e que seja o que o destino traçou para você. Convoque para sua alma e seu corpo o amor do homem ou dos homens que te serão entregues pela vida. Seja generosa no amor, não conte com o tempo, nem se reserve nunca para o futuro com as coisas do amor. Desapegue-se sempre que amar. Ame com todo o amor da vida quando ele te assaltar. Seja apaixonada. Faça de cada época de sua vida uma lenda.

Minha filha, deixarei dormir todas as minhas angústias no dia em que pudermos nos sentar em um sítio qualquer e rirmos da sorte desta vida. Seja feliz, meu amor.

Seu papai e amigo pela vida,

Carlos

(Tradução: Raisa Pina)

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Londres desconhecida parte 2: bares de blues e jazz

Would you like some blues, honey? Aquele blues que parece tocar a alma e chacoalhar o coração, que chora a tristeza só para esgotá-la, pra fazer a lágrima cansar de si mesma e dar lugar pra festa outra vez. Blues é sofrimento constante, mas aquele sofrimento cheio de paixão, que dói com beleza e tudo o que você quer é ficar no canto com seu copo de uísque, dancing your troubles away. Sinto o blues como um dos estilos mais carnais que existem, carregados de sensações à flor da pele, que dói, mas cura; que derruba, mas excita; que te faz querer arrancar a roupa de desespero e se entregar sem pudores nas mãos de alguém que te dê amor. Ah, blues… Sempre quero mais.
No Soho, o Ain’t nothing but blues bar (20 Kingly Street) é conhecido pelos bons shows diários. Tente chegar cedo, por volta as 18h, para conseguir entrar (a fila de espera depois pode demorar). Além da música boa, você pode ter sorte e, como eu, ver apresentação de uma banda liderada por uma senhora idosa de chanel, blusa estilosa, jeans e um baixo de arrasar. Coisas que só Londres faz por você ❤ Se tiver disposição e força de vontade de se deslocar muitos quilômetros, todas as sextas-feiras a partir das 20h30 rola show em uma associação de blues no norte do norte do norte da cidade, a St. Harmonica’s Blues Club (6 Cannon Hill). É longe, mas a programação é intensa e a entrada é gratuita 🙂
Para quem também gosta de jazz e soul, recomendo muito o Troy bar (10 Hoxton Street). Nesse inferninho do leste de Londres, as terças são reservadas para soul e as quartas, para jazz. As sextas têm jam sessions e os outros dias também têm programações especiais. Então dê uma olhada no site para se programar melhor. Quem sabe você não acaba indo a semana toda 🙂 Além dele, o The Blues Kitchen (111 Camden High Street), no norte, também oferece uma agenda para os amantes da boa música (apesar de eu preferir o Troy). Me conte depois o que achou 😉 Para finalizar esse post musical, minha rainha diva querida. Ah, feliz Páscoa!

Londres desconhecida parte 1: tesourinhos do norte

♫ Madness | Our house

Já ficou comum amigos meus, quando estão de viagem marcada para Londres, me pedirem dicas que fujam dos passeios batidos turistões da cidade. Para além de Big Ben e London Eye, há muita coisa legal para se fazer (aliás, sinceramente, a parte boa da capital inglesa passa longe dos monumentos famosos). Visitantes de passagem costumam concentrar suas atenções no centro e no sul da cidade, vendo pontes, prédios, palácios, musicais careiros. Mas o lado mais legal, na minha opinião, são os pubs locais, as baladas da periferia, os parques desconhecidos… Se você é do tipo de gosta de fugir dos guias clichês e se aventurar por aquele bairro que ninguém ouviu falar, você é dos meus. Então cola em mim que é sucesso 😉

Pensei em uma série sobre os lugares desconhecidos de Londres e vou postando aos poucos, começando pela minha região do coração: o norte. Ele costuma ser mais reservado aos londrinos de verdade, com quase nenhuma atração turística, mais residencial, mas com lugares escondidos bem legais para se visitar, frequentados quase sempre por moradores da região (londrinos roots). Amy Winehouse morou aqui, um dos irmãos Gallagher também (não sei a diferença entre eles, não me julguem), Kate Moss, Terry Jones (do Monty Python), Bryan Cranston (o Heisenberg de Breaking Bad), a banda The Kinks já gravou clipes por aqui e a Madness dedicou todo um álbum para a região, o NW5, código postal das redondezas. Para além de um lugar frequentado por nativos, roqueiros e celebs doidonas, o norte tem uma graça toda especial, que vai desde bares animados a cemitério marxista. Se ficou animado, pega o papel, a caneta, uma tesoura sem ponta e anota tudo que você passa de ano. Se liga na lista 🙂
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Camden Town: ok, eu sei que não tem nada de desconhecido em Camden… É a parte mais turista do norte e provavelmente já está na sua lista de coisas a fazer na cidade. Mas mesmo batido, é um batido diferente, mais underground… Não é em qualquer lugar que você vê senhoras punks de cabelo verde e tatuagem na cara ou uma loja que vende roupas feitas só com a fibra da maconha. O lugar é bombante, mas de um jeito que só o norte sabe ser… Quase todas as fotos com a Amy chapada caindo pelas ruas foram flagradas aqui. À noite, as coisas funcionam até mais tarde, os pubs ficam lotados, as casas noturnas animadas, as ruas movimentadas… e ainda tem o canal pra quem tá no erro e busca salvação. Além de alegria, você acha muitas lojas de discos, muitas lojas de quinquilharias baratas (melhor lugar para souvenir), muita comida de rua gostosa e barata. Vá para Camden Lock. Depois me conte se foi feliz por lá 😉
Regent’s Canal: citei ele antes, mas ele merece um tópico à parte. É tão lindo! Parece uma partezinha de Amsterdã no meio de Londres… seja pelos barcos feitos de moradia, seja pela marola, seja pelo ar libertário. Descendo em Camden, você pode andar até King’s Cross de um lado ou até Regent’s Park do outro. Vão rolar altos túneis com graffiti maneiros. Se tiver no verão, vai ser uma festa só! Gringos despirocam no verão, rsrs. E indo até King’s Cross, você vai sair numa parte bem legal também, Granary Square, cheio de bares, instalações luminosas e, se tiver sorte, eventos gratuitos nas margens do canal. É muito amor.
Tapping the Admiral (77 Castle Road): esse pub fica cercado só de casas. À caminho, pode se ter a ideia de que vai ser desanimado, mas confie. Dependendo do horário, pode ser difícil achar lugar para sentar, mas dê pinta de inglês nativo e tome sua pint em pé mesmo, ouvindo clássicos dos anos 80. Tem um jardim bem charmosinho para os fumantes, com luzesinhas bonitas e aquecedor (faz toda a diferença). No bar há uma placa que resume o astral do lugar: “Crianças desacompanhadas serão vendidas como escravas” hahaha E provavelmente você vai ter que disputar as poucas cadeiras vazias com o gato preto que se acha o dono do espaço (talvez ele seja mesmo).
Southampton Arms (139 Highgate Road): e falando em pubs legais, esse é o meu preferido de todos. E não é só porque ele fica bem em frente à minha casa e é só atravessar a rua, o que facilita a volta quando estou trocando os pés, rsrs. Esse lugar só serve rótulos locais independentes e fazem uma rotatividade para que sempre haja novidade na casa. Você pode inclusive sugerir algum rótulo que queira. Nas terças e quartas rola “piano night” a partir das 20h. Quinta é dia de quiz, costume comum de bares bem londrinos. O jardim de fumantes deles é bem lindo também e, se a fome bater, sugiro um hambúrguer ou minha paixão: pork pie. Delícia demais. O que faz com que ele seja ainda mais especial é o preço, mais barato que a média em geral. O único detalhe é que não aceitam cartão.
The Pinapple (51 Leverton Street): outro pub que tem meu coração, mas por outro motivo: a cozinha. Eles têm um cardápio de comida tailandesa que olha… É um amor meio masoquista… A pimenta forte não tem dó. Cada garfada é uma paixão e uma dor simultâneas hahaha A decoração também é muito linda.
The Queen of Sheba (12 Fortess Road): já comeu comida etíope? É sensacional por dois motivos: primeiro pelo óbvio, o gosto; segundo pelo ritual de ser uma comida compartilhada. Você pede porções aleatórias, que podem ser, por exemplo, lentilhas, vegetais ao curry e carne de carneiro. A atendente traz uma travessa linda, bordada e colorida, forrada com um pão fino bem azedo. As porções são servidas em cima do pão e todo mundo divide o mesmo prato, comendo com as mãos. Muito lindo e delicioso. Não deixe de experimentar uma cerveja etíope 🙂
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Gulshaan (343 Kentish Town Road): sou gulosa… se estiver na vibe comilança, tente esse indiano bem em frente à estação de Kentish Town. Tudo é delicioso e o preço é pagável.
Bistro Laz (1 Highgate West Hill): ainda em restaurantes, esse lugar é um amor. Pequenininho, com uma decoração toda cheia de coisinhas, barcos, vinhos, luzes, o restaurante tem um cardápio incrível que serve desde desjejum a jantar. Eu, particularmente, adoro ir lá de manhã e comer aquele english breakfast firmeza ou ovos beneditinos feitos com perfeição. Mas as opções são várias: tem café da manhã turco, mediterrâneo, florentino ou simplesmente uma torrada com chá.
E.mono (287 Kentish Town Rd): apenas o melhor kebab ever!
O2 Forum Kentish Town (9-17 Highgate Road): essa casa de shows tem muita coisa legal na agenda, desde apresentação das drag queens de Ru Paul’s Drag Race a banda de Noel Gallagher ou grupos metaleiros. Vale a pena conferir a programação no site e tentar comprar alguma coisa com antecedência (os ingressos sempre esgotam rapidamente).
Hampstead Heath: parque enorme onde ingleses levam suas crianças ou seus cachorros ou todos juntos para um passeio de domingo. A vista é linda… Por ser numa região alta, dá para ver os prédios grandes mais recentes e a London Eye no horizonte. Acho esse parque mais legal do que Hyde Park, turistão demais. Esse é mais local, mais cheio de árvores e bosques. Se estiver na animação, ande até o meio dele, procurando por Kenwood House. É uma mansão antiga que hoje funciona como museu e tem uma cafeteria sensacional. Um café-da-manhã de domingo por lá é só beleza.
Highgate Cemetery: o maior morador do norte de Londres vive a alguns palmos debaixo da terra: Karl Marx. Divo como sempre, Marx não poderia ter um cemitério melhor. Eu gosto de visitar cemitérios e confesso que esse talvez seja um dos mais lindos que já conheci (se você tem um lado forte hippie como eu, vai concordar). O lugar mais parece um bosque. Você anda por entre as árvores altas comendo blackberries que crescem feito praga pelos caminhos. Além de Marx, há várias outras personalidades importantes, especialmente escritores e pensadores. Mas, depois de Marx, para mim, a segunda pessoa mais importante enterrada lá é Lucia Fleury Nogueira: born in Goiânia, died in London. Quase caí para trás quando vi, ao lado da lápide do Eric Hobsbawn, uma conterrânea minha. É muita fineza!
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Quando vier para Londres, vá para o norte! Descubra outros lugares por conta própria também. Lembre-se que o melhor de Londres é se perder em Londres, rs. Mas olhe sempre para os dois lados antes de atravessar a rua. Com essa mão inglesa ridícula (para quê, não é mesmo?) nunca se sabe se está olhando para o lado certo ou não, então, na dúvida, olhe para os dois! Boa caminhada 🙂

De quando Paris roubou meu coração

♫ Madelaine Peyroux | Weary Blues

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Quem leu meu primeiro texto sobre Paris sabe que minha experiência não foi muito boa. Os parisienses sabem ser grossos e arrogantes num nível exagerado. Quando pensei em voltar, me adiantei e entrei num curso de francês para, no mínimo, conseguir xingar quem me maltratasse. Deu certo! Saber um mínimo da língua pareceu amaciar os corações de gelo daquele povo que se acha muito superior que os outros (cá entre nós, se eu tivesse uma Revolução Francesa na minha história, acho que seria bem metida também…). Minha segunda vez em Paris foi bem mais gostosa: me deixei levar sem tensões pelo momento e acho que me apaixonei.

A parte boa também foi de não ter a obrigação de visitar os pontos turísticos batidos. O Louvre já ficou pra trás, a Torre Eiffel encanta mais de longe do que de perto, não há mais necessidade de perder um dia inteiro em filas de museus e você pode só fazer o que Paris te oferece de melhor: flanar de café em café, entrar nas livrarias que aparecem pelo caminho, tomar uma taça de vinho vendo o movimento da rua… Como eu disse na coluna d’O Beijo, foi justamente por esse ambiente que atiça a vontade de errância que a cidade atraiu artistas e poetas de todos os cantos do mundo da virada do século XIX para o XX. Até hoje, ela tem esse poder. O melhor de Paris é se perder em Paris 😉

Para quem chega de países de língua inglesa ou alemã pode estranhar a confusão latina da capital francesa. Ela me estranhou da outra vez… Achei tudo caótico, tudo meio sujo, o metrô fedendo xixi… Mas dessa vez, não sei se já estava muito saudosa do Brasil depois de quase dois meses longe de casa, achei a bagunça uma alegria. Somos latinos, com toda dor e felicidade que isso inclui. Falamos alto, não temos paciência, xingamos no trânsito, fumamos muito, cuspimos no chão. Isso porque gostamos de nos sentir à vontade mesmo em locais públicos, e o senso de civilidade fica atrás do nosso próprio conforto. “Eu sou assim e quero fazer isso, e se você não gostou, vá à merda”. É mais ou menos isso o nosso pensamento, rs. O que alguns vêem como falta de educação, eu vejo hoje como um exercício de liberdade (claro que há limites… o importante sempre é não esbarrar na liberdade do outro. Se isso não acontece, tá tudo bem e vá à merda com seu julgamento, rs).

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A rede de transporte público da cidade é muito eficiente. Como em Milão, recomendo comprar dez tickets de uma vez porque sai mais barato. E o bilhete pode ser usado tanto no metrô quando no ônibus. Em Milão, entretanto, você pode usar o mesmo passe diversas vezes num intervalo de 90 minutos. Em Paris isso não acontece. Pra cada viagem, um ticket. Há também a opção de comprar o bilhete semanal, que sai em conta, mas ele, por algum motivo muito estúpido, vale apenas de segunda a domingo, necessariamente nessa ordem. Se você chega na cidade na quarta, por exemplo, não pode comprar para usar até a terça seguinte, porque expira no domingo de qualquer forma. Como já disse da outra vez também, a capital francesa conta com um sistema de empréstimo de bicicletas muito eficiente, o Vélib. Há pontos em cada esquina e você faz o cadastro ali mesmo. É muito barato, além de uma forma original, sustentável e muito charmosa de conhecer a cidade 🙂

Paris foi construída em distritos espirais. O mais central é o 1º arrondissement e os outros vão se afastando gradativamente e sucessivamente. Geralmente as dicas sobre hospedagem falam que o importante é ficar até o 10º arrondissement, o que é uma besteira. O importante é ficar relativamente perto de uma estação de metrô. É incrível o quanto é possível economizar com hospedagem entre o 10º e o 13º, por exemplo, sem aumentar a dificuldade de se chegar ao centro. Tenho um amigo que mora no 20º e para ele é muito tranquilo se locomover diariamente na cidade. Além disso, conhecer bairros mais afastados e menos turísticos é sempre mais interessante do que ficar no olho do furacão. Minha opinião.

Agora, vamos aos passeios legais?

❤ Primeira dica: se perca sempre. Quando não souber para onde está indo, sinta-se feliz e aproveite a paisagem. Quer apostar que vai encontrar algo incrível e inesperado pelo caminho?

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❤ Quartier Latin: ai, ai… só de pensar já dá uma alegria de viver. Bairro cheio de cafés, de universitários, da Sorbonne, da minha livraria preferida do mundo: J. Vrin (6 Place de la Sorbonne), especializada em filosofia, cheia de títulos que você estava procurando mas que não achava em lugar nenhum. Cuidado para não estourar o cartão de crédito. Não que tenha acontecido. Só avisando mesmo. Para quem gosta de cinema, uma das melhores ruas da sétima arte também está ali: Rue Champollion. E se você sair na estação Cluny-La Sorbonne, vai dar de frente a uma feirinha de quitutes gostosos e outras bugingangas.

❤ Shakespeare and Co. (37 Rue de la Bûcherie): falando em livrarias do coração, essa aí tem um charme à parte. Especializada em literatura inglesa, na década de 1920, era pondo de encontro entre escritores finos, como Hemingway, Joyce, Fitzgerald… Alguns poetas chegaram a dormir lá e ainda hoje qualquer pessoa pode pedir um leito de graça em troca de algumas horas de trabalho na livraria. O lugar, em frente ao Sena, mais parece um labirinto antigo, com paredes de madeira, escadas antigas, estantes empoeiradas. No andar de cima, algumas camas entre os livros, um piano disponível para quem quiser tocar. Dá vontade de morar ali. Livraria muito querida.

❤ Centre George Pompidou: o único museu que eu revisitei e revisitaria mil vezes. Especializado em arte moderna e contemporânea, com um acervo mais que incrível que inclui todas as vanguardas e algumas neovanguardas, além de trabalhos bastante curiosos, o Pompidou ainda possui a obra mais linda da cidade: a vista de Paris. A Torre ao longe, a Sacre Coeur no horizonte, os milhares de telhados da capital soltando fumacinhas, o céu arrebatador. A lojinha também é demais, com objetos e livros ótimos. Mas cuidado com o limite do cartão de crédito (não custa repetir).

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❤ Jazz: a Rue des Lombards tem vários bares e cafés de jazz com shows diários. Minha sugestão é a jam session do Baiser Salé que rola todo domingo e segunda-feira (às vezes às 19h, às vezes às 21h… eles avisam na porta). Minha experiência mais francesa foi ouvir jazz num salão pequeno e abafado. Muito amor. Quando for voltar pra casa, antes de correr para a estação de metrô (Châtelet está logo ali), dê só uma olhadinha para a Torre da ponte au Change. Veja o céu escuro, as luzes piscando, a água correndo, os carros passando, o ar frio batendo no rosto…

❤ Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris: ninguém fala desse museu e é muito lindão, a começar pelo prédio grandioso e pela vista deslumbrante bem de frente para o Sena e a Torre. Além do mais, é gratuito e tem obras super interessantes. Enquanto nos outros museus você espera mais de hora na fila, nesse você entra direto.

❤ Galerie Vivienne: no século XIX, Paris passou por um período de intensas mudança econômicas e social. O avanço da indústria e da burguesia criou um apelo pela novidade e pelo luxo e um dos resultados disso foi o surgimento das galerias de comércio na cidade, com longos corredores cintilantes e elegantes, vitrines atraentes e um charme que até hoje é preservado, apesar de termos avançado quase dois séculos desse momento. A Galerie Vivienne é uma delas e era um dos lugares favoritos do Julio Cortázar. Fui lá por conta dessa informação e até hoje suspiro pensando nela. Lá dentro, escondida, há um livraria de livros antigos e raros, onde passei alguns momentos namorando as estantes. Na saída, sentei num café e fiquei observando o movimento. Notei um pequeno portão, discreto, quase despercebido, por onde pessoas entravam e não voltavam mais. Resolvi seguí-las e, para minha surpresa, depois de um corredor estreito, caí no meio dos jardins do Palais Royal. No coração caótico de Paris, um refúgio arborizado, com fontes de água e barulho só de pássaros. Pessoas lendo, namorando, observando a suspensão do tempo. Foi ali que percebi que estava apaixonada. E é amor eterno, amor verdadeiro.

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❤ Domingo no parque: pegue o metrô e saia na République. É muito curioso o sentimento que a praça consegue suscitar… O monumento cheio de interferências, seja de críticas ao capitalismo, à religião, à xenofobia, à liberdade teorizada mas não praticada, seja de apoio às vitimas dos atentados (Charlie e Bataclan). Em meio a tudo isso, skatistas fazendo manobras, pessoas aguardando alguém, a vida seguindo alheia a todo aquele vômito ideológico. Depois desse momento de reflexão, desça pro canal St. Martin (se estiver no verão, vai ser ainda mais lindo). Como já dizia meu querido Guimarães Rosa, perto de muita água, tudo é feliz. Uma torta de maçã no Chez Prune (36 Rue Beaurepaire) combina muito bem.

❤ Tem algum conhecido que mora na cidade ou conhece alguém que conhece outra pessoa que mora lá? Perca a vergonha e tente fazer contatos. Se tiver sorte, vai acabar numa festa dançando Jorge Ben até às 5h da manhã, em um apartamento no centro de Paris, com uma vista deslumbrante e pessoas legais 🙂

❤ Palavrões para o caso de algum parisiense te encher o saco:

  • Fils de pute! (“Fís de pute”, para o caso de um homem)
  • Fille de pute! (“Fíe de pute”, para o caso de uma mulher)
  • Connard! (“Conár”)
  • À merde! (Fala do jeito que se lê mesmo)

Ê, Paris… já estou sonhando com a volta, minha querida.

Visitando “a casa” de Hendrix em Londres

♫ Jimi Hendrix | Foxy lady

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Apesar de a casa do Jimi Hendrix em Londres beirar o que poderíamos chamar de armadilha de turista, ela reserva alguns fatos interessantes que me deixaram feliz de ter visitado o lugar. O endereço é 25 Brooke Street, em Mayfair, um dos bairros mais ricos da cidade. Você pode chegar lá saindo nas estações de Bond Street ou Marble Arch. Quando cheguei, avistei uma pequena fila em frente a uma porta singela e discreta. A placa também singela logo me deu a primeira curiosidade sobre o lugar: Handel & Hendrix in London. Achei legal que a casa que, no fim da década de 60, foi casa de um dos roqueiros mais doidões da história, também acolheu, duzentos anos antes, um dos compositores barrocos mais famosos do mundo.
Handel morou nos dois primeiros andares do prédio e Hendrix, no último. Aparentemente é possível visitar só um dos dois pelo valor de £ 7, mas quando cheguei lá, por algum motivo que não entendi qual era, só estavam vendendo o combo com as duas visitações por £ 10 (o que, nas circunstâncias atuais de câmbio bizarro, significa quase R$ 70. Mas a gente não converte pra não morrer de infarto antes da diversão).
Subindo a estreita escada de madeira, se ouve o rangido de um chão que presenciou muita história ali. Handel morava bem, em dois andares amplos, com largas janelas e espaço suficiente para comportar seus vários pianos e cravos. Mas para além dos instrumentos antigos bonitos, não há mais nada tão interessante ali. Encheram as paredes com informações sobre a vida de Handel e colocaram alguns players com composições suas. Mas é tudo meio perdido num grande espaço vazio com chão rangedor, com exceção de um pequeno quarto onde quiseram fazer algo mais interativo, colocando fantasias de Handel e Hendrix para os visitantes tirarem fotos. Meio sem graça, achei… Só achei curiosa a dificuldade de distinguir o que deveria ser fantasia de um ou de outro, porque Hendrix às vezes se vestia como um lorde do século XVIII, rs.
Estava mesmo ansiosa para ver o apartamento de um dos meus roqueiros preferidos e subi para o último andar. Próxima curiosidade interessante, mas broxante: ele morou ali só de 68 a 69, em um ano de intensa turnê pela Europa e Estados Unidos também. Ou seja… ele quase não ficou ali e penso que um ano de moradia é muito pouco para se declarar “a casa” de alguém. Tudo bem que é muito massa pensar que ele esteve ali um tempo, dormiu ali, fez festas ali, mas, poxa, o cara era um doidão e provavelmente dormiu e festou em cada esquina de Londres. Não há nada de original no lugar… Eles conseguiram reproduzir o quarto do artista baseando-se em fotos que tinham, mas é uma reconstrução. A cama ali não é a dele. E a sala foi toda coberta com vídeos e fotos interessantes, mas que me incomodaram com a insistência em exaltar o lugar como um apartamento muito especial da vida dele.
Agora, terceira curiosidade: no fim da década de 60 (nem faz tanto tempo assim), Hendrix pagava um aluguel de £ 30 por semana, o que significa £ 120 por mês, em um dos bairros mais caros de Londres. Hoje um apartamento daquele deve cobrar, no mínimo, dez vezes mais (risos de choque). A lojinha do lugar também é bem fraquinha. Tem alguns discos de vinil que o Hendrix gostava de ouvir ali, muito Bob Dylan, alguns blues, jazz e, claro, The Jimi Hendrix Experience. Mas para além disso, nada demais. E aí vem a última curiosidade: Handel sofre bullying ali, coitado. Morou muito mais tempo no lugar, habitou dois andares, tem muito mais espaço e vários objetos originais dele ali, mas o rei mesmo do pedaço é Hendrix, o que pode ser comprovado pelo valor dos postais: enquanto os do estadunidense custam £ 1, os do germânico custam £ 0,60, quase metade, rs. Se Handel eu fosse, voltaria só para assombrar os visitantes que vão por conta de Hendrix. Pelo menos deixaria a visita mais legal do que é.

Da graça de Milão

♫ Wild Belle | Giving up on you (Ticklah Remix)

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Andando pelas ruas modernas milanesas, sentia falta do esplendor antigo que outras cidades italianas têm. “Milão não é Itália”, me disseram mais de uma vez e pude comprovar a teoria. Realmente, não tem o charme das ruínas, nem as cantininhas baratas onde se acha um prato de espaguete delicioso por quatro euros, não tem a latinidade descontraída do restante do país. À primeira vista, não houve amor da minha parte. Achei que seria um encontro fracassado com a cidade: não achei bonita, achei superficial com sua super-valorização do mundo fashion (realmente, todo mundo por lá parece trabalhar em alguma marca famosa), achei as pessoas frias e a comida ruim. Mas bastou um pouco de paciência da minha parte para começar a gostar do lugar, que é cheio de detalhes especiais, especialmente se você é do tipo de viajante rato de museu.
Pra começar, se você for ficar um número razoável de dias por lá, considere comprar 10 tickets de ônibus/metrô de uma vez, porque sai mais barato. O sistema de transporte é bem eficiente: uma passagem custa 1,50 euro, vale para todos os tipos de locomoção coletiva (inclusive os bondinhos que passam pelo centro) e você pode usar o mesmo ticket diversas vezes por um período de 90 minutos. Então, se você se hospedar mais longe do centro, você pode pegar um ônibus até a estação de metrô mais próxima e depois pegar os bondinhos do miolo histórico pagando apenas 1,50. Achei demais. O centro histórico, entretanto, é bastante pequeno. Dá pra fazer tudo à pé, deixando a confusão de ruas cuverlíneas guiar seu olhar curioso. Porque o melhor de Milão é se perder por Milão, rsrs.
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Chegando pelas estações de trem Porta Garibaldi ou Milano Centrale, dá para chegar a qualquer parte da cidade com esse sistema de passe único. Há metrô nas duas. Chegando pelo aeroporto de Malpensa, você pode pegar o trem que leva até o centro e, de lá, pegar o metrô. Custa 12 euros. Sobre hospedagens, sempre recomendo o Air B&B. Para mim, difícil achar algo com melhor custo-benefício.
Agora, dicas boas que garimpei por lá:
❤ Museus – Poucas cidades me encantaram tanto pelos museus. Claro que Londres tem instituições incríveis, Paris, então, nem se fale… Madrid também é muito amor, mas os museus de Milão tem uma beleza muito singela e, ao mesmo tempo, avassaladora. Isso porque a maioria deles funcionam em palácios antigos, com escadas labirínticas, janelas gigantes, vistas para parques, pé direito alto, paredes de pedras, colunas, varandas, plantas… É um lugar em que arte e arquitetura realmente se completam ali, lindo demais. Além disso, são mestres italianos, né. Caravaggio ali, de boa, de frente para uma biblioteca centenária conservada dentro do museu. Visitei quatro e recomendo todos, sem ordem de preferência:
  • Pinacoteca Ambrosiana – onde tem esse Caravaggio na biblioteca centenária, Ticiano, Botticelli, Pinturicchio, Jan Brueghel, Tintoretto e por aí vai.
  • Museo del Novecento: mais moderno, focado nas vanguardas do início do século XX. Tem Picasso, Morandi, Matisse, Futuristas de montão, Braque, de Chirico e de Pisis. O prédio fica de frente para o Duomo e a vista é de suspirar.
  • Galeria d’Arte Moderna:   fica de frente para o Jardim Público Indro Montanelli, outro passeio sensacional. A galeria conta principalmente com coleções particulares que foram doadas a ela e que possuem obras super interessantes. Você vai encontrar obras de artistas italianos do século XX não tão conhecidos fora da Itália, o que faz do lugar ainda mais especial.
  • Pinacoteca di Brera: ah, como é linda… O prédio é arrebatador, com suas escadas de pedra e varandas arejadas. No lugar também funciona a Academia di Brera, com cursos de artes, inclusive cursos de restauração. Pelo museu, é possível ver obras sendo restauradas e alunos atentos anotando tudo.
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❤ Brera – e falando da Pinacoteca, aproveite para conhecer o bairro que é um charme à parte. A Via Fiori Chiari, logo acima do museu, é uma viela de paralelepídos cheia de restaurantes lindos e sorveteria gostosa. Mesmo se tiver no frio do inverno, não deixe de tomar uma casquinha da sorveteria natural artesanal Amorino. O Orto Botanico di Brera é um refúgio do cinza da cidade. O jardim usado para estudos universitários é aberto para visitação gratuita e é um descanso para a mente. Se jogar no meio do verde é sempre bom 🙂
❤ Centro histórico – a praça do Duomo é realmente incrível. Eu não gosto muito de esperar horas na fila para entrar em igrejas pagando uma taxa exagerada, mas se for a sua, acho que vale a pena. Aparentemente a vista é linda. Mas a vista é linda da frente da igreja também ahahaha. De lá, uma caminhada pela Galeria Vittorio Emanuele II é quase que obrigatória. Está ali do lado e é uma passagem única, com pé direito alto, afrescos no teto, restaurantes e lojas finos… Tudo meio caro… Mas achei um restaurantezinho mais em conta ali do lado: Le Spighe Cafè, na Via Giuseppe Verdi. Comi um carbonara por 6 euros.
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❤ Café-da-manhã no Pavè (Via Felice Casati) – confeitaria/restaurante decorado como se fosse uma casa de vó, com sofás, mesas coletivas e muitos quitutes. Eles servem panetone o ano inteiro. Acho que não preciso dar mais motivos para ir, rsrs.
❤ Navigli – estava evitando ir a essa região que ouvi falar que era a melhor, às margens do canal, cheia de bares e restaurantes. Achei que seria turística demais e dei de ombros. Mas no meu último dia resolvi dar uma chance e me arrependi de não ter ido antes. É realmente uma das melhores regiões. O canal é um charme, os bares são acessíveis e os restaurantes são sensacionais sem te cobrar um rim por isso. Na minha última noite, resolvi me levar para um jantar romântico comigo mesma e fui ao Bela Riva. Pedi uma massa com camarões que pareciam lagostas de tão grandes e alcachofra. Foi uma das melhores coisas que já comi na vida, rs. Para chegar lá, saia na estação Porta Genova (linha verde), caminhe pela Via Vigevano até a Corsico, que vai morrer no canal.
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Depois de tudo isso, impossível não mudar de ideia com relação à primeira impressão desapontada que a cidade causou. Milão pode ser bem legal 🙂

Das saudades do meu coração

Essa é para meus companheiros viajantes do mundo: De onde vem nossa vontade de ir? Essa vontade tão forte, tão insaciável? Parece que há algo pulsando em nossa alma, algo gritando, pedindo para ir, para correr, para sair do lugar; algo que nunca é calado, mesmo quando atendemos seu clamor. Quanto mais vamos, mais temos vontade de ir além. Vontade de perder o lugar; de entrar em outro tempo; de sentir, ao mesmo tempo, que não pertencemos ali, mas ter a certeza de que somos do mundo. É muita contradição, não? Sim, mas nada mais humano. Talvez essa vontade pulsante seja só a vontade de nos sentirmos mais humanos, nos encontrarmos com nós mesmos. Talvez.
Meu querido Bachelard fala que esse desejo pela errância é natural do ser porque o nosso próprio ser não pode ser fixado. Somos hesitantes por natureza, não temos lugar. Antes de tudo, fomos nômades nos primórdios da humanidade. A fixação veio só milênios depois. Mas nossa alma, essa continua flutuante. Quer cair no mundo e quer que o mundo caia nela, quer misturar tudo até se perder ainda mais, não saber o que é mundo e o que é alma, porque realmente, no coração dos viajantes, não há mesmo como saber. Nossa alma tá no mundo e vice-versa.
Mas da mesma forma que a vontade de ir sempre aumenta, a vontade de voltar aparece simultaneamente (contradições humanas de novo). Quanto mais saímos, mais voltamos, mas não voltamos para um lugar, voltamos para nós mesmos. Nossas andanças pelo mundo, mais do que uma procura por lugares diferentes, culturas diversas, é uma busca pela nossa essência mais íntima, que vaga por aí. Mas uma hora o corpo cansa, a mente se esgota e o coração pede para voltar.
Meu coração está no Brasil, no cerrado, naquele Planalto Central que deixa qualquer Alpe Suíço no chinelo. Depois de dois meses longe, dando voz à minha alma e liberdade aos meus pés, não consigo mais calar o pedido tão sincero que vem de dentro: quero voltar, Brasil. Meu lugar é aí. Estou numa ausência de calor, de cor, de sal, de sol de coração pra sentir. Como disse Darcy Ribeiro, lugar melhor não há; o problema é só a elite ruim, ranzinza, que não deixa meu país ir pra frente. Mas isso vai mudar. Certezas do meu coração saudoso.
Só mais um mês e estou de volta 🙂