Feriado, celebração (ou: Mapa do tesouro)

♫ Mayra Andrade | Comme s’il en pleuvait

Quando vivemos em uma cidade, nosso corpo se acostuma a ser acostumado. Não temos o brilho nos olhos nem a empolgação de turistas, trocamos passeios nos dias de folga por séries do Netflix, não celebramos mais os pequenos tesourinhos que as ruas podem esconder, não acordamos cedo para aproveitar melhor o dia. A inércia é forte, mas às vezes a felicidade consiste justamente em sacudir esse marasmo e se propor à novidade (mesmo que a novidade não seja tão nova assim, mesmo que seja só um detalhe que estava de escanteio).

Quer dar uma curtida na cidade? Pergunte-me como 😉 Quem me acompanha por aqui sabe que uma das minhas coisas preferidas é sair por aí com olhar de turista sobre minha própria cidade. Incrível como um passeio simples pode melhorar a vida. No último feriado, fiz um roteiro que gostei demais e compartilho aqui com você. Depois me contaria o que achou?

❤ Ponto de partida: almoço no restaurante Naturetto da 405 Norte – Sou dessas que, se tivesse demorado mais meio-minuto para nascer, nasceria hippie. Como gosto de coisas naturebas e um mato. Sou carnívora convicta, mas me chama pra um almoço vegetariano e vou feliz e saltitante, me sentindo uma pessoa melhor no mundo. Antes que outras carnívoras também torçam o nariz para essa minha sugestão, logo digo que o Naturetto serve peixes assados deliciosos, então não é de todo vegetariano. As opções de salada são incríveis e ainda tem uma torta de banana assada que vale cada centavo. Acredite em mim: você vai se sentir muito bem depois que as vitaminas do broto de alfafa fizerem efeito no corpo, rs. Além disso, o ambiente todo arborizado e com mesas de madeira também já te deslocam para uma mini-viagem campestre.

❤ Próximo passo: sobremesa na sorveteria Sorbê, ao lado do Naturetto. Amiga, tem sorvete de pitanga e o melhor pistache que já provei. Sem mais argumentos.

Caminhada até a UnB: outro ponto positivo de comer em restaurante natureba é que, não importa o quanto você se empanturre, uma tonelada de folha de mostarda não se equivale a um quilo de torresmo, então você vai se sentir ainda disposta a se movimentar por aí. Depois da comida gostosa, desça reto em direção à UnB. Como eu gosto de campus universitário! Só de ver os prédios já me anima, me sinto mais inteligente. Vá para lá em direção ao Instituto de Artes (Ida), veja os azulejos exclusivos do Athos Bulcão, veja as pichações militantes, respire um pouco de juventude e progressismo e espere a van gratuita para o CCBB. Se você estiver na mesma pilha que eu estava, poderia considerar levar uma garrafa de vinho branco gelada na bolsa para ir bebendo neste trajeto. Ficar sentada na frente do Ida esperando a van do CCBB e bebendo vinho… poderia ser um passeio em Paris, não fosse o sol de 40 graus.

Van gratuita para o CCBB: vamo repetir? É gratuita! Não tem desculpa nenhuma para não ir pro CCBB. Você pode conferir os horários da van aqui.

CCBB: mais conhecido como Parque de Diversões das Cult. Lá tem de tudo: exposição de arte, teatro, mostras de cinema, café, gramado, vista linda para a ponte JK, vista linda para o pôr-do-sol, museu do Banco do Brasil… E a maior parte dessas coisas é de graça. Fala sério. Dê uma olhadinha na programação aqui e aproveite. Às vezes até rola meditação na lua cheia, shows e outros eventos especiais.

❤ Volta do CCBB na van gratuita: parada no Teatro Nacional.

❤ Depois de parar perto da Rodoviária, caminhe até ela e encerre seu dia com o pastel mais gostoso de Brasília: Pastelaria Viçosa. Peça um caldo de cana gelado também 😉 E não se esqueça de dar aquela namorada básica na vista para a Esplanada.

Advertisements

Mostra de cinema nórdico

stockholm_stories_poster

Quer um programão 0800 para os próximos dias? Anote então na agenda: Mostra de cinema nórdico do CCBB, que é gratuita e traz diversos filmes produzidos recentemente na Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca. Com início nesta quarta-feira (23/11), a mostra dura até 5 de dezembro. Confira a programação completa aqui.

Da lista grande de filmes, selecionei seis que mais me animaram para compartilhar aqui: Não chore por mim (Suécia); Helsinque, para sempre (Finlândia); Histórias de Estocolmo (Suécia); Corações Valentes (Noruega); O Hotel (Suécia) e O Amante da Rainha (Dinamarca). A sinopse desses filmes estão no link da programação. Depois conto aqui o que achei dos filmes que eu assistir 🙂

Nos vemos lá?

Mac DeMarco 0800

maxresdefault

Um dos meus cantores preferidos dos últimos tempos faz show de graça hoje no Parque da Cidade, como parte da programação do Picnik. Mac DeMarco já passou por São Paulo e Rio de Janeiro e, por lá, os ingressos custaram um rim. Por aqui, vai ser de graça! O canadense tem cinco discos no currículo. Apesar de o meu preferido ser Salad Days, fiz uma playlist com um apanhado geral para já ir esquentando. Bora lá? É às 18h30!

alô, amantes de música e história do Brasil!

♫ Caetano Veloso | Tropicália

IMG_0189

Está rolando uma exposição super legal no Museu dos Correios: A música canta a República, que fica em cartaz até 24 de janeiro e tem entrada gratuita. A proposta, elaborada pelo jornalista Franklin Martins, é destacar músicas que, ao longo de um século, foram compostas no calor de acontecimentos históricos importantes do país. O recorte parte de 1902, quando surgiu a primeira gravadora de discos do Brasil, a lendária Casa Edson, que ficava na minha querida Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Na época, as cançonetas, no maior estilo das chançonettes francesas, eram o gênero mais gravado e eram usadas como forma de satirizar a República recém-instituída. Revoltas sociais, como as da Vacina e da Chibata (saravá, João Cândido!) foram temas de algumas das canções do momento, assim como os absurdos da República do Café com Leite e os movimentos contestatórios, como a Coluna Prestes. Modas de viola também ganharam gravações e o samba, com a popularização do carnaval, foi cada vez reinando mais entre os lançamentos da Casa Edson. Na década de 1910, as marchinhas foram responsáveis por 40% das gravações.

A década de 30 trouxe várias mudanças, começando com o fim da República Velha e o início da Era Vargas. Também surgiram métodos elétricos de gravações, responsáveis pela abertura de outras gravadoras no país e pelo consequente aumento dos lançamentos anuais. Foram várias as canções que cantaram a esperança e a posterior desilusão com relação a Getúlio Vargas, que exaltaram os pracinhas enviados para a Guerra, que criticaram a censura getulista e depois pediram de novo o “velhinho” no poder. Depois disso… bem, a história é longa: presidentes depostos, vices assumindo, mudança de capital, golpe militar, período de ferro, torturas, censuras, exílios, redemocratização… Redemocratizamos de fato? Ou melhor, alguma vez chegamos a democratizar? Ao longo de décadas a história do país foi sofrida, mas também foi cheia de poesia, e poesia política, que mobiliza e provoca mudanças importantes na realidade social. Não quero falar demais para não tirar a graça da exposição. Tem muita informação, muita música e muitas fotografias de arrepiar, especialmente do período ditatorial (tem até uma reprodução lindíssima que o artista Gurulino fez a giz daquela foto famosa do Teatro Opinião). Incrível como às vezes a história parece se repetir… É por isso que é tão importante sabermos nosso passado. Só assim evitamos repetir os mesmos erros.

Cola lá!
A música canta a República
Museu dos Correios – Setor Comercial Sul, Qd. 4, Bl A, nº 256
Até 24 de janeiro
Entrada franca

elogio à arte não-bela

♫ Lou Reed | Satellite of love

download

Perguntei para um amigo se ele gostava de arte contemporânea e a resposta que eu tive foi: “Gosto do que é belo”. Lembrei de todas as vezes que ouvi algo parecido e fiquei pensando no quanto a arte, por mais que tenha mudado muito ao longo de milênios, ainda é refém do ideal de perfeição da antiguidade. Vou me corrigir: talvez não da antiguidade (a arte como cópia quase exata da realidade), mas do sublime romântico. Desde o início do século passado, graças a Duchamp e seu mictório principalmente, o ideal de beleza foi colocado à prova. Para os que não conhecem a historinha, conto rapidamente: na década de 1910, rolava uma Nova York uma associação chamada Sociedade dos Artistas Independentes, formada por artistas e intelectuais que iam contra uma instituição conservadora e asfixiante, a National Academy of Design. Daí que essa sociedade organizou uma exposição em que cada associado poderia participar com um obra desde que pagasse uma taxa de US$ 5. O francês Marcel Duchamp mandou um mictório, desses de banheiro masculino mesmo. Não, ele não fez o objeto. Ele passou numa loja de materiais de construção (isso sou eu divagando, não sei onde ele conseguiu, só sei que ele não fez!), comprou o objeto e mandou pra Sociedade. Não foi aceito, o que foi muito estranho, porque a regra era clara: seria exposta toda obra de associado que pagasse US$ 5. Essa “técnica” artística de pegar objetos já existentes e expor com mínimas interferências chama readymade e mudou o rumo da arte para sempre.

Isso porque a arte se libertou da obrigação de ser bela. E se ela não tinha mais que ser bela, qual seria então sua função? Alguns autores autores vão falar que a partir de então, a arte só poderia ser explicada pelos caminhos da filosofia, que dá liberdade de pensamento aos que se propõem à reflexão. Assim, numa sociedade administrada igual a nossa, de meios de comunicação de massa que nos induzem a pensar de tal forma e consumir de tal forma, a arte nos dá alguns momentos de liberdade a partir da sua reflexão. Ao olharmos uma tela e comentarmos com um amigo, por exemplo, o diálogo vai conseguir fugir do nosso “compra, compra, compra” constante. Podemos gostar ou não da obra, tentar entender os motivos de criação do artista… Todos esses pensamentos são importantes para estimularmos nossa liberdade de raciocínio que nos escapa na rotina capitalista.

Tudo isso que contei é na verdade para abrir os olhos e o coração das pessoas que dizem que “gostam do que é belo” nas artes. A arte que foge disso é muito legal! Contestar limites, ideias, paradigmas… Perturbar é bom! É fazer sair dessa inércia monótona que estamos. E para estimular esse “olhar aberto”, convido todos para a exposição VI Pós-Happening, no Espaço Piloto, na UnB, aberta até dia 17/11. Trabalhei na organização, produção e curadoria e, modéstia à parte, está bem bacana! A exposição faz parte da programação do evento acadêmico dos alunos da pós-graduação das Artes, o ComA, que também está demais. Na galeria, 27 artistas mostram trabalhos recentes que rompem com um limite a priori: entre o nosso eu e o mundo que nos rodeia. Para os mais reticentes, tem coisas belas no sentido romântico também, rs.

Cola lá!
VI Pós-Happening
Espaço Piloto – UnB
Até 17/11
Entrada franca

programão: cine drive-in

♫ Cordel do Fogo Encantado | O amor é filme

cine drive-in

Recebi um convite inusitado para um sábado à noite esses dias: “Bora pro Cine Drive-in?” E eu, que estava esperando a vida me trazer uma surpresinha para o dia, aceitei o presente e fui, toda animada com oportunidade. Até o momento, eu era virgem de Drive-in, confesso. Estava um pouco nervosa, ansiosa… mas já tinha visto na televisão como era e me deixei levar pelo ritmo lento das coisas. A noite estava bonita, o parceiro era legal (amigo já de alguns anos, alguém que eu confiava), fomos devagar, respeitando o tempo de cada um (o nosso e o do cinema, no caso). Quando mal esperei, aquela sensação boa me invadiu e, de repente, fiquei apaixonada. Não quero mais saber de nenhum outro cinema. Só tenho olhos para o Drive-in ❤

O lance é que toda a atmosfera do lugar te envolve de tal forma que não tem como não se render aos encantos dele. Parece que, logo que se chega à entrada, se atravessa um portal que te transporta para um filme americano dos anos 80. “Você pode desligar o farol?”, pergunta o atendente. Ele cobra sua entrada e te dá um cardápio que, além de sanduíches e batata frita, tem cerveja! Cerveja no cinema! Fala sério… Só amor.

Adoro muito cinema. Desde pequena costumo acompanhar meus pais em sessões diversas, tanto em casa quanto em salas comerciais. Cresci vendo e imitando as travestis de Almodóvar (e como diz meu pai, por isso que me tornei essa menina saudável, engajada nas boas causas… hahaha); cresci frequentando mostras independentes, vendo filmes pesados (alô, Saló!) e comedinhas hollywoodianas também (ninguém é de ferro, rs). Na minha adolescência em Goiânia, rolava uma mostra muito legal chamada 8 pras 11 (oi, Hélio Neiva!), que começava a exatos 8 minutos para às 11h da noite e varava a madrugada com uns filmes difíceis de alugar por aí (na época, download era para poucos, rs). Essa mostra e outras que rolavam no Cine Ouro (cineminha pequeno do Centrão) moldaram meu caráter (que perigo!). Devo muito de quem eu sou hoje ao cinema ❤

Maaass… De uns tempos para cá, ando desgostosa de ir ao cinema. É sempre barulhento, cheio de pessoas que deixam o celular tocar nas horas inapropriadas, o espaço é pequeno (tenho 1,78m de altura. Preciso de espaço para as pernas!). Daí que ir ao Cine Drive-in me abriu todo um universo novo. Primeiro que, como cada um fica no seu carro, há uma privacidade sensacional! Você não escuta a conversa alheia e pode conversar à vontade sem se preocupar com o coleguinha do lado. Você regula a cadeira do carro do jeito que quiser e o áudio, que era uma dúvida minha com relação ao drive-in, é feito via rádio. Você tem que sintonizar na frequência deles lá e pronto! Som que você regula o volume 🙂 Muita qualidade de vida. Aí vem o plus… Tem lanchonete e garçom, que te atende quando você liga o farolete do carro, hahaha. O pedido chega na bandejinha, igual aos filmes americanos (só faltou o garçom atender de patins). E vamos só relembrar que tem cerveja! Sensacional.

E para quem ainda não assistiu ao filme da Anna Muylaert, Que horas ela volta?, com a Regina Cazé e a Camila Márdila, CORRÃO que ainda está em cartaz no Drive-in 🙂 A produção é muito foda (não vou ser spoiler. Só confia e vai lá ver) e está fazendo o maior sucesso aqui e lá fora. Os pais do meu padrasto, que moram no interior do interior da Suíça, assistiram o filme lá antes mesmo de chegar ao Brasil e ficaram encantados. Falaram bem, fizeram propaganda… Não pode ficar sem ver. Ganhou prêmio em Sundance e em Berlim. É cheio de discussões de classe na contemporaneidade, sem perder a questão humanista e afetiva. É tudo o que digo. Ó o trailer:

Bom filme! 🙂

Colá lá!
Cine Drive-in
Área Especial do Autódromo – Centro Desportivo Presidente Médice – Asa Norte
Ingressos:
De 2ª a 5ª – R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
De 6ª a domingo e feriados – R$ 22 (inteira) e R$ 11 (meia)