#Retrô: entrevista com Karina Buhr

Há exatos quatro anos, eu entrevistava Karina Buhr, que faria seu primeiro show em Goiânia. A conversa com a cantora foi publicada originalmente pelo jornal A Redação. De lá para cá, muita coisa mudou na minha vida, no Brasil e no mundo, mas Karina continua sendo incrível. Então se liga, porque recordar é viver 😉

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(Foto: Diego Ciarliariello/divulgação)

Karina Buhr: “gosto de poder pirar nos shows”

por Raisa Pina
Desde a estreia solo com o disco “Eu Menti Pra Você”, lançado em 2010, a cantora Karina Buhr coleciona prêmios e elogios no currículo. Com o primeiro álbum, a pernambucana apareceu nas listas dos melhores discos do ano das revistas Rolling Stone e Billboard, além do jornal Folha de S. Paulo, e abocanhou o prêmio de artista do ano da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). O segundo disco, “Longe de Onde”, não desapontou a crítica e consagrou Karina como uma das cantoras mais importantes da nova geração.
Gravado em 2011 pelo projeto Natura Musical, o segundo álbum manteve a pernambucana na lista dos 10 melhores discos da revista Rolling Stone e conquistou posições nos rankings de melhor show dos jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo. Com maquiagem e roupas extravagantes, Karina diz vestir o que acha confortável. “Gosto de pirar no show, pular, me jogar no chão”, contou em entrevista ao A Redação.
Finalmente em Goiânia, depois de fazer shows no Brasil e no exterior, inclusive no festival dinamarquês Roskilde, a cantora foi a penúltima atração de sábado do 18º Goiânia Noise Festival, evento que começou na sexta-feira (9/11) e se encerra neste domingo (11/11). Comparada a Patti Smith e aos Mutantes, Karina Buhr traz seu jeito irreverente e sem fofuras para o palco do festival, onde cantará faixas tanto do primeiro quanto do segundo disco.
A Redação – Seu disco de estreia lhe rendeu bons frutos. Foram várias indicações a prêmios e conquistas nos rankings especializados dos melhores discos daquele ano. Agora você está em turnê com seu segundo álbum, “Longe de Onde”. É difícil lançar um novo trabalho depois de outro tão bem sucedido? Dá um frio na barriga?
Karina Buhr – O frio na barriga é totalmente no sentido do disco mesmo, uma coisa boa de se sentir em relação a um trabalho novo, mas jamais por conta de cobrança externa ou algo assim. Esse tipo de reconhecimento é massa, faz mais pessoas conhecerem meu som, o show rodar mais, mas não me pauto por isso para fazer minhas músicas, nem meus shows. Faço porque gosto e torço para um monte de gente gostar, mas não mudo nada nele por conta disso, nem fico louca pra saber se vou passar por média na opinião geral.
O “Longe de Onde” traz letras e melodias mais agressivas. Foi essa a intenção?
Engraçado, eu não acho. Acho que os dois discos tem algumas letras e melodias mais agressivas e outras mais calmas. “Avião Aeroporto”, “Soldat”, “Nassíria e Najaf”, “Telekphonen” são todas do primeiro disco e são bem agressivas em vários sentidos diferentes. Mas o “Longe de Onde” é mais pesado nos arranjos, sim, porque foi uma vontade minha mesmo, de passar para esse disco um peso que conquistamos nos shows. Convidei de novo Mau [baixista da banda] e Bruno Buarque [baterista da banda] para produzirem comigo o segundo disco. Foi natural esse caminho, porque é uma comunicação, um ponto de vista comum da gente também, então não precisou de nenhum esforço extra, além de trabalhar muito para ver o disco prontinho.
Como é o seu processo criativo? Você é do tipo de pessoa sentimental, que cria a partir de emoções do momento, ou do tipo racional, que leva tempo para chegar ao resultado final de tanto pensar e repensar a criação?
As duas coisas [risos]. Crio a partir das coisas que vivo, das coisas que sinto e depois fica tudo ali um tempo, maturando. Eu corto, colo, mudo finais, acrescento começos…
Como você lida com as comparações que fazem a seu respeito? Por exemplo, a MTV americana se referiu a você como uma “Patti Smith brasileira” e alguns críticos musicais disseram que o “Longe de Onde” lembrava um pouco Os Mutantes. Você gosta dessas coisas ou acha incômodas?
Acho maravilhoso isso! Porque comparações acontecem sempre que uma pessoa quer tentar explicar para outra, que não conhece um som, o que ele lhe lembra, ou elementos que ele tem que outro som também tem. Então só posso achar muito bom Patti Smith e Rita Lee ou Os Mutantes entrarem na minha sopinha de opiniões alheias [risos].
No Prêmio Bravo!, você foi finalista da categoria “Melhor Show”, disputando o troféu com Gal Costa e Marisa Monte. Como é estar no mesmo patamar de artistas veteranas tão importantes para a história da música brasileira?
Foi uma emoção bem grandona. Normalmente vejo prêmios de um jeito mais frio, fico feliz, mas não me sinto o máximo por conta deles. Dessa vez também não, mas claro que fiquei muito emocionada de estar do lado de duas pessoas fundamentais para mim e para música brasileira como um todo. E de épocas tão diferentes da minha vida.
Você tem – ou teve na infância ou adolescência – ídolos em quem se espelhar e inspirar?
Não digo me espelhar, porque procuro sempre a minha verdade, o que eu tenho de particular para dizer, para mostrar, para sentir, e não fico tentando um caminho parecido com o dessa ou daquela pessoa. Mas inspiração vem de todos os lados! O carnaval de Pernambuco é a minha inspiração maior, em todos os sentidos. E a música brasileira toda. Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Rita Lee, [Gilberto] Gil, Paulinho da Viola e um monte de gringo também, como Sex Pistols, Velvet Underground e Kraftwerk.
Pernambuco é um estado muito rico culturalmente e, talvez por isso, lançou várias personalidades importantes para o país, sejam cantores, escritores, jornalistas, atores, enfim. Você leva consigo a bandeira do seu estado e de sua cultura original ou prefere não ser rotulada como regionalista?
Bandeira eu levo a da liberdade total de bandeiras. Não acho que tem a ver com território, mas com o juízo livre. E o que trago de lá, amo e sempre vai estar comigo, como os ritmos que aprendi a tocar nos meus tambores, como o jeito de dançar várias coisas. O que existe de tradicional na música, nas artes de cada lugar é precioso e é tão precioso quanto as individualidades. Ser de Pernambuco não significa ser regionalista, isso faz parte do pacote preconceituoso que abomino. Isso não significa de jeito nenhum abominar o lugar de onde vim, pelo contrário, exalto ele e muito.
Sobre as roupas e maquiagens extravagantes que você gosta de usar, elas são uma preocupação estética ou, ao contrário, uma crítica aos modelos vigentes?
Eu, quando penso em uma roupa ou uma maquiagem para o show, não penso nisso me comparando com outras pessoas. Então não vejo como crítica a modelos. Gosto de uma roupa que seja confortável, para eu poder pirar no show, pular, me jogar no chão. Tenho gostado muito de maquiagens fortes, mas isso também pode virar outra coisa. Posso encher o saco de me enfeitar tanto [risos]. Visto algo que eu ache bonito também, mas pode ser que daqui a um tempo eu ache mais bonito um vestido branco. Difícil vai ser fazer ele terminar o show branco [risos].
É a primeira vez em Goiânia? Como você imagina a cidade?
Sim, e o Goiânia Noise, assim como vários outros festivais brasileiros, é sonho antigo meu. Acompanho o evento há tempos e adoro a ideia de ir tocar nele, como adoro a ideia de ir tocar em uma cidade que nunca pisei. Provavelmente não vou conhecer a cidade além do festival, então penso que vou achar Goiânia bem rock and roll [risos].
Você vai tocar o “Longe de Onde” na íntegra?
Não na íntegra, porque pelo tempo de show não daria. Em festivais, os shows são mais curtos pela quantidade de bandas, mas vou tocar grande parte dele e também algumas músicas do “Eu Menti Pra Você”.

Veja abaixo o clipe da música “Cada Palavra”, faixa que abre o disco “Longe de Onde”:

Novo Evoé Café: é muito amor

♫ Letuce | Que se chama amor

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Goiânia anda numa onda tão boa de novas ideias, projetos interessantes, estabelecimentos criativos… repararam? Há duas semanas um local que se encaixa bem nessa geração produtiva da cidade foi (re)inaugurado: Evoé Café, agora em parceria com Quixote, que assume a cozinha. Depois de quase dois anos ocupando uma salinha charmosa porém apertada da Galeria Central, na rua 3, a dona Giovana Ogando teve uma ajudinha do destino para conseguir alugar um espaço maior e mais gostoso na rua 91, 489, Setor Sul. Conheceu por acaso a proprietária de uma casa que estava namorando há tempos para alugar em uma conversa eventual sobre um de seus assuntos preferidos: arquitetura.

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“Adoro conversar sobre casas, prédios, arquitetura em geral. E essa casa aqui sempre me chamou muita atenção por ser de feita de adobe, além disso dava para perceber que era grande. Na época eu cheguei a ligar, interessada no lugar, mas não conseguia pagar o aluguel. Depois de conhecer a dona e falar da ideia do montar um café lá, negociamos e chegamos a um acordo”, conta Giovana, que tem apenas 19 anos, mas muita ideia na cabeça e força de vontade para colocar coisas em prática.

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Desde os 16 anos Giovana se mostra talentosa no empreendedorismo criativo, quando começou a trabalhar com produção cultural. Por essa experiência anterior, ela teve a ideia de montar um café que também fosse um espaço “para as coisas acontecerem”. Hoje, seu café tem direito a um ambiente com palco baixo e uma agenda de eventos cheia. Neste domingo chuvoso (14/12), por exemplo, haverá Troca de Ideias sem Discriminação, um bate-papo sobre temas variados (o desta vez é amor) a partir das 16 horas, seguido de uma competição de bambolê. Sobre este último evento, Giovana sentiu a “necessidade” de fazer algo do tipo depois de flagrar seus clientes dia desses, todos compenetrados e empenhados no bambolê. “Entre altos e baixos, [ter o café] tem sido no mínimo muito divertido”, conta rindo.

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Livros à venda decoração pensada com carinho pela dona, cheia de peças antigas de família e xodós pessoais; espaço para apresentações culturais e um café ao ar livre, com direito a goiabeira e passarinhos cantando no quintal. Tudo isso faz do Evoé um café especial, onde a gente chega já se sentindo à vontade e querendo tirar o sapato. A cozinha, liderada por Bella Vale da Quixote (empresa de quitutes deliciosos por encomenda), também tem grande parcela de culpa na criação desse espaço aconchegante. Nada dá mais boas-vindas do que pão de queijo e bolo de cenoura acabados de sair do forno.

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O dom de Bella na cozinha é hereditário. Cresceu dentro da padaria dos avós e hoje se vê realizando um sonho antigo de ter seu próprio café. “A ideia é fazer algo no estilo dos cafés franceses, um café-bistrô. Servimos bolos, pão de queijo, cookies, bruschettas, sanduíches no pão folha, pastinhas… Neste fim de semana vamos estrear lasanha”, conta Bella. O cardápio não é fixo e sempre tem novidade. Entre as bebidas, além de – obviamente – café, há chás, destilados, drinks, cervejas e vinho. Sexta e sábado, a casa, que abre de quarta a domingo a partir das 14 horas, fica aberta até meia-noite, com luzinhas e velas iluminando o jardim ❤

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Casulo: casa de moda, festas e ideias ousadas

♫ Daft Punk | Lose yourself to dance

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Anota aí: Rua 1136, 550, Marista. O endereço hospeda uma das lojas mais bacanas da cidade, a Casulo Moda Coletiva. Com cinco sócios jovens, bonitos e moderninhos, a proposta do lugar multimarcas vai na direção oposta dos grandes centros de consumo, apostando na ideia de Slow Fashion: uma produção atemporal, que não segue com muito rigor o calendário da moda e tem tiragem limitada. Todas marcas à venda na Casulo têm produção autoral e a maioria é assinada por designers locais, como a Quim – da estilista Lara Vaz –, Naya Violeta, Salamandra do Fogo – de Su Martins – e Novelo – de Rodolfo Lopes e Milleide Lopes, ambos diretores da casa. Além de roupas e acessórios, há também objetos de decoração e obras de arte, como os pôsteres assinados pelo Bicicleta sem Freio.

A relação com as marcas é que faz a Casulo ser tão única, dando espaço para novos estilistas e designers mostrarem seu trabalho. E foi assim desde o começo, há quase sete anos, quando a agora diretora administrativa e relações públicas Maiene Horbylon, que fabricava e vendia alargadores em festivais de música, conheceu a atual diretora de produção do coletivo, Su Martins, e juntas tiveram a ideia de abrir um ateliê. O primeiro endereço foi na rua 123, no Setor Sul. De lá para cá, se mudaram algumas vezes, agregaram mais pessoas, dividiram espaço com mais grupos criativos e passaram por várias lapidações até ter a cara que tem hoje: uma cara linda, com um sorriso imenso estampado no rosto, cheia de sonhos e projetos ousados, e espaço para muita gente.

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Casa premiada
No último dia 3, a empresa recebeu o Prêmio Brasil Criativo em uma cerimônia no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. A equipe goiana concorreu com empresas do país inteiro e acabou levando o troféu que incentiva a economia criativa brasileira. Uma coisa importante de se ressaltar desse prêmio: só reconhece projetos em execução, ou seja, não basta que a ideia inscrita seja boa, tem que provar que mangas foram levantadas e mãos entraram em ação. Outro quesito valorizado pelo prêmio é a questão da sustentabilidade, que na Casulo entra como a valorização do trabalho autoral local. “Já recebemos proposta da Colcci e da Coca-Cola para vendermos produtos aqui na loja, mas recusamos. São marcas já consolidadas, que não fazem parte da nossa ideia. Queremos vender pequenas marcas e não grandes marcas”, contou Maiene ao lado da sócia Milleide.

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“Quando vou comprar alguma coisa, sempre procuro marcas locais ou, no mínimo, nacionais. É um dinheiro investido no Brasil. Queremos fortalecer a economia criativa, o mercado local e capacitar pessoas”, completa Maiene. “Acreditamos em um mundo melhor. Moda não é só roupa nem beleza. Moda é comportamento, estilo de vida”, acrescenta Milleide. E no quesito comportamento, a Casulo faz muita coisa, como por exemplo o Bazar de Trocas que deve rolar no dia 24 de janeiro. Nele, todos os produtos da loja são retirados e o espaço é preenchido com peças que os próprios clientes levam para trocar uns com os outros. “Não queremos que a pessoa compre tudo a todo momento. Queremos que a pessoa se conheça e use melhor as peças que tem em casa”, explica Milleide. Consumo consciente é isso aí! Fora que um bazar desses estimula a ocupação pública do espaço, incentiva o encontro, a vida social e, claro, o desapego.

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Festinhas
Além do Bazar de Trocas, a Casulo realiza frequentemente diversos eventos. Só esta semana há dois por vir: a reinauguração do Retrô Food & Drinks (bar e restaurante que divide o espaço com a loja e faz parte da família, literalmente – o dono, Lucas Horbylon, é irmão de Maiene), na quinta-feira (11/12); e Amor Solidário na sexta (12/12), projeto de leilão beneficente de obras de arte. No dia 21, será a vez do The Flash Day Tattoo, dia em que vários tatuadores ficam disponíveis para marcar a pele de quem se interessar. Todos os eventos são sempre regados com boa música e bebida gelada do Retrô.

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Para 2015, já existe uma grande ideia encaminhada. A equipe da Casulo aprovou no Fundo de Cultura Estadual um projeto bastante interessante que envolverá designers locais e estudantes universitários na criação de coleções que envolverão macrotendências mundiais e a cultura goiana. O lançamento dessas coleções será feito em local público e contará com desfile, exposição e vídeos. “A loja não quer só vender. A gente quer envolver a sociedade”, finaliza Milleide. Pois então que nos deixemos envolver cada vez mais por ideias tão legais assim. Repensem suas próximas compras 😉

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 (Lá tem também serviços de maquiagem, cabelo e sobrancelha! É agendar com antecedência!)

Eventos por vir

Reinauguração do Retrô Food & Drinks
11/12, a partir das 18 horas

Amor Solidário
12/12, das 19h às 23h

The Flash Day Tattoo
21/12, das 10h às 20h

Bazar de Trocas
24/01, sem horário definido ainda

Casulo Moda Coletiva
Rua 1136, 550, Marista
A partir das 16 horas

Amor sem preconceitos

♫ Tulipa Ruiz | Do amor

Cia Quasar estreia espetáculo sobre a efemeridade do amor contemporâneo

“Aquela leveza…
Essa consciência. Esse querer.
Existem e ainda vão existir inúmeras possibilidades de amar.”
(Trecho destacado no programa do espetáculo)

imagem2  (Identidade visual: Juliano Moraes)

“Hoje as pessoas dizem ‘eu te amo’ com muita facilidade”, refletiu o coreógrafo da Cia Quasar, Henrique Rodovalho, entre um gole de café e outro. A efemeridade e multiplicidade das relações contemporâneas foi o que inspirou o dançarino a pensar o espetáculo Sobre isso, o meu corpo não cansa, apresentado pela primeira vez ao público nas últimas terça e quarta-feiras (2 e 3/12), no Teatro Goiânia. Na próxima semana, a companhia estreia no Sesc Pinheiros, em São Paulo, e de lá deve rodar Brasil e exterior com a novidade.

Amor de verão, namorinho de portão, rolo de uma noite só, homem com homem, mulher com mulher, festinha à três, paixões avassaladoras que duram a vida inteira. Seja qual for a forma com a qual o amor se manifesta, ele é sempre celebrado pelos amantes do mundo inteiro. O resultado disso é um tema insaciável, universal, tratado desde a existência humana – e assim será até o fim dos tempos. Daí o nome do espetáculo: sobre o amor, nosso corpo nunca se cansa nem nunca se cansará.

“O meu amor sai de trem por aí e vai vagando devagar para ver quem chegou…” A melodia suave da música de Tulipa Ruiz abre o espetáculo. A iluminação e o cenário, também pensados por Henrique, marcam o tempo cronológico das diversas histórias contadas em cima do palco. Casando com a música leve inicial, a luz também se mostra de uma leveza que quase escapa ao espectador. Está tudo voando em sintonia: melodia, dançarinos, luz. Assim como voa o coração em início de amor. Conforme o tempo passa, tudo vai ganhando mais peso. A cor predominante evolui para um vermelho, a coreografia se torna mais passional, mais erótica; casais são desfeitos, pessoas são abandonadas, o sofrimento toma conta. Aí vem o negro e a tristeza em meio à dramaticidade musical do momento. “(…) é só você que tem o dom de me enganar, me seduzir, me desdobrar, de me cuspir, só pra me obter”, grita Tulipa Ruiz enquanto os dançarinos, cada um fechado em seu próprio mundo sentimental, colocam para fora toda a dor do amor rompido.

Este é o penúltimo quadro do espetáculo e o que o sucede é uma volta ao início: a mesma música leve, a mesma esperança de amar, o mesmo casal que se encontra de novo depois de ter pintado e bordado com diversos outros casos de amor. E enquanto eles se encaram, com olhares apaixonados, os outros dançarinos começam a desmontar o palco: recolhem corações de papel espalhados pelo chão, recolhem as roupas que ficaram jogadas, levantam o véu que definia o cenário. Tudo se esvai e só fica o amor no fim das contas.

imagem1  (Identidade visual: Juliano Moraes)

Trilha sonora
A contemporaneidade do espetáculo também foi traduzida nas músicas escolhidas, todas assinadas por três cantoras jovens, atuais e que muito falam sobre essa temática sentimental. São elas Tulipa Ruiz, Mallu Magalhães e Clarice Falcão. A única exceção é Billie Jean, música de Michael Jackson que é cantada ao vivo pelos dançarinos bem afinados enquanto Henrique Rodovalho mostra toda sua desenvoltura no dedilhar de um violão. Quem foi apenas na primeira noite de estreia não teve o prazer de ver o coreógrafo no palco: “Era para eu ter entrado ontem também, mas quis assistir a apresentação da plateia. Mais tarde teremos um ensaio e vamos corrigir algumas coisinhas. Também vou incluir na segunda apresentação uma cabeça de cachorro em um dos dançarinos. Tive essa ideia hoje. Saindo daqui vou em uma loja de fantasias atrás dessa cabeça”, contou Henrique com toda a calma e elegância que tem. À noite, no Teatro Goiânia, um dos bailarinos entrou com uma cabeça de sapo. Ri sozinha na plateia.

A escolha por três artistas mulheres para assinar a trilha sonora foi uma coincidência, segundo Henrique. “Não era para ser só mulher, mas elas são mais interessantes, refletem mais a contemporaneidade”. Além disso, são complexas. “A Clarice Falcão tem um quê de neurótica fofinha, fala em se atirar do oitavo andar de um prédio sem perder a ternura; a Mallu é romântica, mas não é bobinha; e a Tulipa traz dramaticidade”. Ao todo são 21 músicas marcando o passo de oito dançarinos que se revesam na sedução do público: Andrey Alves, Harrison Gavlar, Jackeline Leal, João Paulo Gross, José Vilhaça, Martha Cano, Paula Machado e Tainara Carareto. Impossível ignorar um só que seja. Todos impecáveis. Sobre eles, meu corpo não cansa.

adutora da rua 10 começa a ser graffitada de novo (oba!)

♫ MS MR | Hurricane

Quem passa com frequência pela Rua 10, no St. Universitário, percebeu que o canoduto da ponte sobre a Marginal Botafogo teve seus graffitis apagados nas últimas semanas. A ação, contudo, não teve o intuito de excluir para sempre a arte urbana daquele local, muito pelo contrário. Ela faz parte de um projeto maior, chamado Refazendo Arte: uma parceria entre artistas e a Saneago que tem o objetivo de manter a qualidade artística na adutora e ressaltar a importância do uso consciente da água. Para isso, a Saneago limpou e pintou o cano para que novas obras pudessem ser feitas ali. Com curadoria de Tatiana Potrich, da Galeria Potrich, a intervenção conta com a participação de Decy, Morbeck e Wes Gama.

Ontem passei pelo local com minha mais nova e linda bicicleta dobrável (ainda estou em lua-de-mel com ela!) e percebi que já começaram os trabalhos artísticos (estavam esperando a iluminação ser consertada, por isso demorou um pouco) e, segundo Tatiana, devem terminar até o fim da semana. Para matar a curiosidade e acalmar os corações de quem estava chorando a perda de graffitis tão bonitos, registrei alguns desenhos que já estão lá. Mesmo assim, continuo ansiosa para ver o resultado final!

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9º dia: praça tamandaré (mais interessante do que parece!)

♫ Di Melo | Kilariô

A Praça Tamandaré, com exceção da época de Natal, em que vira uma atração à parte, é um pouco negligenciada pelos olhares corridos da população. Uma pena, porque é tão linda… As árvores, as flores, os banquinhos nas sombras esperando alguém se aproveitar deles, os estabelecimentos ao redor. Além de ir ao Centro nas manhãs de sábado, outro programa que adoro fazer no dia é descer a pé para a Tamandaré (andar a pé, em uma sociedade acostumada com carros e engarrafamentos, já dá a sensação de férias, descanso… Como gosto de repetir: somos todos pedestres e devemos exercer essa condição ao máximo!). Na praça, vou direto para os Biscoitos Pereira (sempre: pão de queijo, rosquinha húngara e suco de laranja espremido na hora! Nhami!), olho umas revistas na banquinha de jornais, levo meus rolos de filme fotográfico para revelar e ainda compro umas flores no Pão de Açúcar (vira e mexe tem algumas espécies em promoção!).

Para os homens vaidosos, tem a Engraxataria do Vilmar bem ao lado do Biscoitos Pereira. Acho sensacional ver os senhores engraxando sapatos (taí uma função que foi tão desvalorizada com o tempo que quase não se vê mais pela cidade. Mas na Tamandaré tem!). E para fechar com chave de ouro, depois de tanto pão de queijo e rosca, ainda dou uma passada na Frutos do Brasil para refrescar. Os picolés são os melhores DO MUNDO! Onde mais se acha picolé de cagaita? E umbu? E tanta fruta regional deliciosa? Só lá. São tantos sabores que fico até meio tonta para escolher, mas os meus preferidos são (por ordem de preferência):

❤ cagaita (gosto de cerrado!)
❤ jabuticaba
❤ goiaba (tem até um salzinho para jogar em cima!)
❤ gengibre

Nesse calor infernal de inverno que já começou por aqui, um picolé na geladeira de casa pode salvar uma vida.

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P.S.: A música de hoje é em comemoração à programação do Vaca Amarela, divulgada essa semana 😉 Chega logo, setembro!

8º dia: o excêntrico Don Guina

♫ Lobão | Corações psicodélicos

Depois de dar uma pausa nos posts de férias para dar lugar a uma matéria legal que fiz sobre os artistas contemporâneos goianos, volto a relatar minha programação especial de descanso 😉

Quando recebo visitas de fora de Goiânia, existe um lugar que faço questão de levá-las para já causar uma boa impressão: Don Guina (2ª Avenida Radial, 1612, Vila Redenção). Bar mais excêntrico não há. O ambiente é escuro, nos moldes de inferninhos roqueiros que adoro, e a decoração é toda trabalhada nas bugigangas e quinquilharias que Guina, o proprietário motoqueiro, trouxe de suas viagens pelo mundo. Apaixonado por veículos de duas rodas, Guina já percorreu centenas de milhares de quilômetros (isso não é exagero da minha parte) pelo Brasil, América do Sul e chegou até ao México. Pelo caminho, foi recolhendo objetos inusitados, que hoje estão pendurados pelas paredes e teto do estabelecimento. As mesas de azulejo e forros de chita ajudam a compor o lugar. Tudo isso junto dá um ar boêmio latino que é muito legal.

A carta de cervejas especiais é bem interessante, mas há também as opções populares de sempre. Os petiscos são simples e gostosinhos, e a música ambiente, sensacional. Só toca rock, mas dentro do gênero, há de tudo um pouco, desde Pink Floyd a RPM e toda companhia anos 80 da música brasileira. O atendimento é feito pelo próprio Guina, tão excêntrico quanto seu negócio. Não vá esperando o melhor atendimento do mundo (não se pode ter tudo na vida); quem dita às regras é o garçom, no tempo dele, do jeito dele. Chega a ser engraçado. Mas isso não estraga em nada a noite. Continuo sempre levando minhas visitas para lá e o bar continua sempre causando uma boa impressão.

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